Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora

by Fernando Pessoa · 1932
Published 01/07/1932

Rala cai chuva. O ar não é escuro. A hora

Inclina-se na haste; e depois volta.

Que bem a fantasia se me solta!

Com que vestígios me descobre agora!


Tédio dos interstícios, onde mora

A fazer de lagarto. — O muro escolta

A minha eterna angústia de revolta

E esse muro sou eu e o que em mim chora.


Não digas mais, pois te ignorei cativo...

Teus olhos lembram o que querem ser,

Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo

Langor do poente que me faz esquecer.

Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo,

Perco-te, e o som do mar faz-te perder.

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