Fausto ao espelho

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

«Deus existe mas não é Deus» eis a chave transcendente de todo o ocultismo. É este o símbolo representado por «morte de Deus-Homem».


Pode Deus existir mas não ser Deus;

Transcendente mentira realmente

Existindo e cercando-nos,

O único Horror de um mistério maior.


      Se Deus houvera dado

      À verdade outro ser

      Que não o ser pensando

      O Como a conceber,


      Não nos dera a verdade

      Mas qualquer ilusão

      Na cómoda eternidade

      Da vasta escuridão.


Fora Deus Deus, Deus fosse menos que este

Pensamento que abre na minha alma

Um poço sem paredes, e eu pudesse

Ao pensamento exceder o sumo

Inexcedível, figurar mais vasto

Deus que Deus é... Como seria assim?

Por ser o ser que é absoluto ser!

Não haver para além do sempre além

Ou novas direcções do infinito,

Número infinito de infinitos.


[... ]

Ah, parar de pensar! Pôr um limite

Ao mistério possível. Ter o mundo

Este infinito [?] mundo por o mundo,

Por Deus o Deus que é dele e o fez e ama!

Este meu pensamento transciente

De transcendência, por magia ignota

Evoque do Incógnito um torpor

Com que se o mesmo casasse! Ah, um sono, um Sono

Um sono de pensar me roube a mim!


Treva! morte! Trevas e morte do Eu!

Matar-me dentro da alma! Que eu não pense

Por absoluta ausência e em mim descanse

Esta concentração multiplicada

De mais mundos que os mundos infinitos,

De mais seres que o ser que é mais que os seres!

E eu mesmo em morte inteira seja Abismo!

Vale-me o morte.

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