Servo sem dor de um desolado intuito,

by Fernando Pessoa · 30-11-1933
Published 30/11/1933

Servo sem dor de um desolado intuito,

De nada creias ou descreias muito.

O mesmo faz que penses ou não penses.

Tudo é irreal, anónimo e fortuito.


Não sejas curioso do amplo mundo.

Ele é menos extenso do que fundo.

E o que não sabes nem saberás nunca

É isso o mais real e o mais profundo.


Troca por vinho o amor que não terás.

O que esperas, perene o esperarás.

O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.

Morto, que rosas é que cheirarás?


Vendo o tumulto inconsciente em que anda

A humanidade de uma a outra banda,

Não te nasce a vontade de dormir?

Não te cresce o desprezo de quem manda?


Duas vezes no ano, diz quem sabe,

Em Nishapor, onde me o mundo cabe,

Florem as rosas. Sobre mim sepulto

Essa dupla anuidade não acabe!


Traze o vinho, que o vinho, dizem, é

O que alegra a alma e o que, em perfeita fé,

Traz o sangue de um Deus ao corpo e à alma.

Mas, seja como for, bebe e não sê.


Com seus cavalos imperiais calcando

Os campos que o labor esteve lavrando,

Passa o César de aqui. Mais tarde, morto,

Renasce a erva, nos campos alastrando.


Goza o Sultão de amor em quantidade.

Goza o Vizir amor em qualidade.

Não gozo amor nenhum. Tragam-me vinho

E gozo de ser nada em liberdade.

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