Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;

by Fernando Pessoa · 28-8-1927
Published 28/08/1927

Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;

      Não venhas falar, nem sorrir.

Estou cansado de tudo, estou cansado

      E quero só dormir.


Dormir até acordado, sonhando

      Ou até sem sonhar,

Mas envolto num vago abandono brando

      A não ter que pensar.


Nunca soube querer, nunca soube sentir, até

      Pensar não foi certo em mim.

Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,

      Escrevi numa página em branco, «Fim».


As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,

      Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro

Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,

      Mas nunca encontrei parceiro.


Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,

      Só quero dormir, uma morte que seja

Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales —

      Que ninguém deseja nem não deseja.


Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo

      As esperanças e ambições que tive,

E hoje sou apenas um suicídio tardo,

      Um desejo de dormir que ainda vive.


Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,

      Como um barco abandonado,

Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma

      Sem se lhe saber o passado.


E o comandante do navio que segue deveras

      Entrevê na distância do mar

O fim do último representante das galeras,

      Que não sabia nadar.

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