Bóiam farrapos de sombra
by Fernando Pessoa
· 3-4-1934
Published 03/04/1934
Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que não sei ser
É todo um céu que se escombra
Sem me o deixar entrever.
O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.
Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, como a minha paz,
A esperança, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.