Oiço passar o vento na noite.
by Fernando Pessoa
· 24-9-1923
Published 24/09/1923
Oiço passar o vento na noite.
Sente-se no ar, alto, o açoute
De não sei que ser em não sei quando.
Tudo se ouve, nada se vê.
Ah, tudo é igualdade e analogia.
O vento que passa, esta noite fria.
São outra coisa que a noite e o vento —
Sombras de Ser e de Pensamento.
Tudo nos marca o que nos diz.
Não sei que drama a pensar desfiz
Que a noite e o vento passados são.
Ouvi. Pensando-o, ouvi-o em vão.
Tudo é uníssono e semelhante.
O vento cessa e, noite adiante,
Começa o dia e ignorado existo.
Mas o que foi não é nada disto.