Canto IV

by Luís Vaz de Camões · 1572 (edição princeps)
Published 01/07/1572

Deſpois de procello ſa tempestade,

Nocturna ſombra, & ſibilante vento,

Traz a manhaã ſerena claridade,

Eſperança de porto, & ſaluamento:

Aparta o Sol a negra eſcuridade,

Remouendo o temor ao penſamento:

Aſsi no Reino forte aconteceo,

Deſpois que o Rei Fernando ſalleçeo.


Porque ſe muito os noſſos deſejarão,

Quem os danos & offenſas va vingando,

Naquelles que tãbem ſe aproueitârão,

Do deſcuido remiſſo de Fernando,

Deſpois de pouco tempo o alcançârão,

Ioanne ſempre illuſtre aleuantando

Por Rei, como de Pedro vnico erdeiro

(Ainda que bastardo) verdadeiro.


Ser iſto ordenação dos ceos diuina,

Por ſinais muito claros ſe moſtrou

Quando em Euora a voz de hũa minina,

Ante tempo falando o nomeou:

E como couſa em fim que o Ceo destina,

No berço o corpo, & a voz aleuantou,

Portugal, Portugal, alçando a mão

Diſſe, polo Rei nouo Dom Ioão.


Alteradas então do Reino as gentes,

Co odio que occupado os peitos tinha,

Abſolutas cruezas, & euidentes

Faz do pouo o furor por onde vinha,

Matando vão amigos & parentes,

Do adultero Conde, & da Rainha,

Com quem ſua incontinencia deſoneſta

Mais (despois de viuua) manifeſta.


Mas elle em fim com cauſa deſonrado,

Diante della a ferro frio morre,

De outros muitos na morte acompanhado

Que tudo o fogo erguido queima & corre:

Quem como Astianas precipitado

(Sem lhe valerem ordẽs) de alta torre

A quem ordẽs, nem aras, nem reſpeito,

Quem nu por ruas & em pedaços feito.


Podẽſe por em longo eſquecimento,

As cruezas mortais que Roma vio

Feitas do feroz Mario, & do cruento

Syla, quando o contrario lhe fogio:

Por iſſo Lianor, que o ſentimento

Do morto Conde ao mundo deſcobrio,

Faz contra Luſitania vir Caſtella,

Dizendo ſer ſua filha herdeira della.


Beatriz era a filha, que caſada

Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede,

Por filha de Fernando reputada,

Se a corrompida fama lho concede.

Com esta voz Caſtella aleuantada,

Dizendo que eſta filha ao pay ſucede:

Suas forças ajunta pera as guerras

De varias regiões & varias terras.


Vem de toda a prouincia que de hum Brigo,

(Se foy) ja teue o nome diriuado

Das terras que Fernando, & que Rodrigo

Ganharão do tirano & Mauro eſtado:

Não eſtimão das armas o perigo,

Os que cortando vão co duro arado

Os campos Lioneſes, cuja gente,

Cos Mouros foi nas armas excellente.


Os Vandalos, na antiga valentia

Ainda confiados,ſe ajuntauão

Da cabeça de toda Andaluzia,

Que do Goadalquibir as agoas lauão,

A nobre Ilha tambem ſe apercebia,

Que antigamente os Tirios habitauão:

Trazendo por inſignias verdadeiras

As Herculeas colunas nas bandeiras.


Tambem vem la do Reino de Toledo,

Cidade nobre & antiga, a quem cercando

O Tejo em torno vay ſuaue & ledo,

Que das ſerras de Conca vem manando:

A vos outros tambem não tolhe o medo,

O ſordidos Galegos, duro bando,

Que pera reſistirdes, vos armastes,

Aaquelles, cujos golpes ja prouastes.


Tambem mouem da guerra as negrasfurias,

A gente Bizcainha, que careçe

De polidas razões, & que as injurias

Muito mal dos estranhos compadeçe:

A terra de Guipuſcua, & das Aſturias

Que com minas de ferro ſe ennobreçe,

Armou delle, os ſoberbos matadores,

Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores.


Ioane, a quem do peito o eforço creçe,

Como a Sariſam Hebreo da guedelha,

Poſto que tudo pouco lhe pareçe

Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha,

E não porque conſelho lhe faleçe,

Cos principaes ſenhores ſe aconſelha:

Mas ſo por ver das gentes as ſentenças,

Que ſempre ouue entre muitos diferenças.


Não falta com razões quem deſconcerte,

Da opinião de todos, na vontade,

Em quem o esforço antigo ſe conuerte,

Em deſuſada & ma deſlealdade,

Podendo o temor mais, gelado, inerte

Que a propria & natural fidelidade,

Negão o Rei & a patria, & ſe conuem

Negarão (como Pedro) o Deos que tem.


Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe,

No forte dom Nuno aluerez: mas antes

Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe,

Reprouando as vontades incoſtantes:

A aquellas duuidoſas gentes diſſe,

Com palauras mais duras que elegantes,

A mão na eſpada irado, & não facundo,

Ameaçando a terra, o mar, & o mundo.


Como da gente illuſtre Portugueſa,

Ha de auer quem refuſe o patrio Marte?

Como, deſta prouincia que princeſa

Foy das gentes na guerra em toda parte,

Ha de ſair quem negue ter defeſa,

Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte

De Portugues, & por nenhum reſpeito

O proprio Reino queira ver ſogeito?


Como, não ſois vos inda os deſcendentes

Daquelles, que debaixo da bandeira,

Do grande Enriquez, feros & valentes

Venceſtes eſta gente tam guerreira?

Quando tantas bandeiras, tantas gentes

Poſeram em fugida, de maneira,

Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão

Preſos, afora a preſa que tiuerão?


Com quem forão contino ſopeados

Estes, de quem o eſtais agora vos,

Por Dinis & ſeu filho, ſublimados

Se não cos voſſos fortes pais & auôs?

Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados,

Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos,

Torne vos voſſas forças o Rei nouo,

Se he certo que co Rei ſe muda o pouo.


Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes

Igual ao Rei que agora aleuantaſtes,

Desbaratareis tudo o que quiſerdes,

Quanto mais a quem ja desbarataſtes:

E ſe com iſto em fim vos não mouerdes,

Do penetrante medo que tomastes,

Atay as mãos a voſſo vão receio,

Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio.


Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta,

(E dizendo isto arranca mea eſpada)

Defenderey da força dura, & infeſta

A terra nunca de outrem ſojugada,

Em virtude do Rei, da patria meſta,

Da lealdade ja por vos negada,

Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:)

Mas quantos a meu Rei forem contrarios.


Bem como entre os mançebos recolhidos,

Em Camiſio, reliquias ſos de Canas,

Ia pera ſe entregar quaſi mouidos

A fortuna das forças Affricanas:

Cornelio moço os faz, que compelidos

Da ſua eſpada jurem, que as Romanas

Armas, nam deixarão em quanto a vida

Os nam deixar, ou nellas for perdida.


Deſtarte a gente força, & e força Nuno,

Que com lhe ouuir as vltimas razões

Remouem o temor frio importuno,

Que gelados lhe tinha os corações:

Nos animais caualgão de Neptuno,

Brandindo, & volteando arremeſſoẽs,

Vão correndo & gritando a boca aberta,

Viua o famoſo Rei que nos liberta.


Das gentes populares, hũs aprouão

A guerra com que a patria ſe ſoſtinha,

Hũs as armas alimpão & renouão,

Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha:

Capaçetes eſtofam, peitos prouão,

Armaſe cada hum como conuinha.

Outros fazem vestidos de mil cores,

Com letras & tenções de ſeus amores.


Com toda esta lustroſa companhia,

Ioanne forte ſae da freſca Abrantes,

Abrantes, que tambem da fonte fria

Do Tejo logra as agoas abundantes:

Os primeiros armigeros regia,

Quem pera reger era os muy poſſantes,

Orientais exercitos, ſem conto,

Com que paſſaua Xerxes o Helesponto.


Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro

Açoute de ſoberbos Caſtelhanos,

Como ja o fero Huno o foy primeiro

Pera Eranceſes, pera Italianos,

Outro tambem famoſo caualleiro,

Que a ala dereita tem dos Luſitanos,

Apto pera mandalos, & regelos,

Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos.


E da outra ala que a eſta correſponde,

Antão vazquez de Almada he Capitão,

Que deſpois foy de Abranches nobre Conde,

Das gentes vay regendo a ſestra mão,

Logo não retagoarda não ſe eſconde,

Das quinas & caſtellos o pendão,

Com Ioanne Rey forte em toda parte,

Que eſcurecendo o preço vay de Marte.


Eſtauão pelos muros temeroſas,

E de hum alegre medo quaſi frias,

Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas

Prometendo jejũs, & romarias:

Ia chegão as eſquadras bellicoſas,

Defronte das imigas companhias,

Que com grita grandiſsima os recebem,

E todas grande duuida concebem.


Respondem as trombetas menſageiras,

Pifaros ſibilantes, & atambores,

Alferezes volteão as bandeiras,

Que variadas ſam de muitas cores:

Era no ſeco tempo, que nas eiras

Ceres o fructo deixa aos lauradores,

Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto,

Baco das vuas tira o doçe moſto.


Deu ſinal a trombeta Castelhana,

Horrendo, fero, ingente, & temeroſo,

Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana,

A tras tornou as ondas de medroſo:

Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana,

Correo ao mar o Tejo duuidoſo:

E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão,

Aos peitos os filhinhos apertârão.


Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor,

Que ao coração acode o ſangue amigo,

Que nos perigos grandes, o temor,

He mayor muitas vezes que o perigo,

E ſe o não he, pareçeo, que o furor

De offender, ou vencer o duro immigo,

Faz não ſentir, que he perda grande & rara

Dos membros corporais da vida cara.


Começaſe a trauar a incerta guerra,

De ambas partes ſe moue a primeira ala,

Hũs leua a defenſam da propria terra,

Outros as eſperanças de ganhala:

Logo o grande Pereira em quem ſe encerra

Todo o valor, primeiro ſe aſsinala

Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea

Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea.


Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes

Farpões, ſetas, & varios tiros voão,

Debaxo dos pês duros dos ardentes

Cauallos, treme a terra, os vales ſoão:

Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes

Quedas, co as duras armas tudo atroão.

Recreçem os immigos ſobre a pouca

Gente, do fero Nuno que os apouca.


Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão,

(Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta,

Que menos he querer matar o yrmão,

Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta:

Destes arrenegados muitos ſam,

No primeiro eſquadrão, que ſe adianta,

Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho)

Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno.


O tu Sertorio, o nobre Cariolano

Catilina, & vos outros dos antigos,

Que contra voſſas patrias, com profano

Coração, vos fizestes inimigos:

Se lâ no reino eſcuro de Sumano

Receberdes grauiſsimos castigos

Dizeilhe que tambem dos Portugueſes

Algũs tredores ouue algũas vezes.


Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros,

Tantos dos inimigos a elles vão:

Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros

De Ceita estâ o fortiſsimo lião

Que cercado ſe ve dos caualleiros

Que os campos vão correr de Tutuão,

Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo

Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo.


Com torua vista os vê, mas a natura

Ferina, & a yra não lhe compadecem

Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura

Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem:

Tal eſtà o caualeiro que a verdura

Tinge co ſangue alheyo, ali perecem

Algũs dos ſeus, que o animo valente

Perde a virtude contra tanta gente.


Sentio Ioane a afronta que paſſaua

Nuno, que como ſabio capitão,

Tudo corria, & via, & a todos daua

Com preſença & palauras coração:

Qual parida Lioa fera & braua

Que os filhos que no ninho ſôs eſtão

Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara,

O paſtor de Maſsilia lhos furtara.


Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos

Os montes ſete Irmãos atroa & abala,

Tal Ioane com outros eſcolhidos

Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala:

O fortes companheiros, o ſubidos

Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala,

Defendey voſſas terras que a eſperança

Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.


Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro

Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes

Dos inimigos corro, & vou primeiro

Pelejay verdadeiros Portugueſes.

Iſto diſſe o magnanimo guerreyro

E ſopeſando a lança quatro vezes,

Com força tira & deſte vnico tiro

Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro,


Porque eis os ſeus aceſos nouamente

Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo

Sobre qual mais com animo valente,

Perigos vencerâ, do Marcio jogo

Porfião: tingeo ferro o fogo ardente

Rompem malhas primeiro, & peitos logo

Aſsi recebem junto & dão feridas

Como a quem ja não doe perder as vidas.


A muitos mandão ver o Eſtigio lago

Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua

O Meſtre morre ali de Sanctiago

Que fortiſsimamente pelejaua

Morre tambem, fazendo grande eſtrago

Outro Meſtre cruel de Calatraua

Os Pereiras tambem arrenegados

Morrem, arrenegando o Ceo & os fados.


Muitos tambem do vulgo vil ſem nome

Vão, & tambem dos nobres ao profundo

Onde o Trifauce Cão perpetua fome

Tem, das almas que paſſão deſte mundo

E porque mais aqui ſe amanſe & dome

A ſoberba do imigo furibundo,

A ſublime bandeira Caſtelhana

Foy derribada os pês da Luſitana.


Aqui a fera batalha ſe encruece

Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas

A multidão da gente que perece

Tem as flores da propria cor mudadas:

Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece

O furor, & ſobejão as lançadas,

Ia de Caſtella o Rey desbaratado

Se vee, & de ſeu propoſito mudado.


O campo vay deixando ao vencedor

Contente de lhe não deixar a vida

Seguẽ no os que ficarão, & o temor

Lhe da não pês, mas aſas aa fugida:

Encobrem no profundo peito a dor

Da morte, da fazenda deſpendida,

Da magoa, da deſonra, & triste nojo

De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo.


Algũs vão maldizendo & blasfemando

Do primeyro que guerra fez no mundo

Outros a ſede dura vão culpando

Do peito cobiçoſo & ſitibundo:

Que por tomar o alheo, o miſerando

Pouo auentura aas penas do profundo

Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas

Sem filhos, ſem maridos deſditoſas.


O vencedor Ioanne eſteue os dias

Coſtumados no campo, em grande gloria

Com offertas deſpois, & romarias

As graças deu a quem lhe deu victoria:

Mas Nuno que não quer por outras vias,

Entre as gentes deixar de ſi memoria

Se não por armas ſempre ſoberanas

Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas.


Ajudao ſeu destino de maneira

Que fez igoal o effeito ao penſamento,

Porque a terra dos Vandalos fronteira

Lhe concede o deſpojo & o vencimento

Ia de Siuilha a Betica bandeira

E de varios ſenhores nũ momento

Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa

Obrigados da força Portugueſa.


Deſtas & outras victorias longamente

Erão os Caſtelhanos opprimidos

Quando a paz deſejada ja da gente

Derão os vencedores aos vencidos:

Deſpois que quis o Padre omnipotente

Dar os Reis inimigos por maridos

Aas duas lllustriſsimas Ingleſas

Gentis, fermoſas, inclitas princeſas.


Não ſofre o peito forte vſado aa guerra

Não ter imigo ja a quem faça dano,

E aſsi não tendo a quem vencer na terra

Vay cometer as ondas do Occeano:

Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra

Da patria, por fazer que o Afrinano,

Conheça pollas armas, quanto excede

A ley de Christo aa ley de Mafamede.


Eis mil nadantes aues pello argento

Da furioſa Tetis inquieta,

Abrindo as pandas aſas vão ao vento

Pera onde Alcides pos a extrema meta:

O monte Abila, & o nobre fundamento

De Ceita toma, & o torpe Mahometa

Deita fora, & ſegura toda Eſpanha

Da Iuliana, mã, & desleal manha.


Não conſentio a morte tantos annos

Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe

Portugal, mas os coros ſoberanos

Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe:

Mas pera defenſam dos Luſitanos

Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe,

E aumentaſſe a terra mais que dantes

Inclita gêração, altos Infantes.


Não foy do Rey Duarte tão ditoſo

O tempo que ficou na ſumma alteza,

Que aſsi vay alternando o tempo iroſo

O bem co mal, o goſto co a tristeza:

Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo?

Ou quem vio em fortuna auer firmeza?

Pois inda neſte Reino, & neſte Rey

Não vſou ella tanto deſta ley.


Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando

Que a tão altas empreſas aſpiraua

Que por ſaluar o pouo miſerando

Cercado, ao Sarraceno ſentregaua:

Sô por amor da patria eſtâ paſſando

A vida de ſenhora feyta eſcraua,

Por não ſe dar por elle ha forte Ceita

Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita.


Cadro porque o inimigo não venceſſe,

Deixou antes vencer da morte a vida,

Regulo porque a patria não perdeſſe,

Quis mais a liberdade ver perdida:

Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe

A captiueiro eterno ſe conuida:

Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto

Nemos Decios leais fizerão tanto.


Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro,

Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia,

Que a ſoberba do barbaro fronteiro,

Tornou em baxa & humilima miſeria,

Fora por certo inuicto caualleiro,

Se não quiſera yr ver a terra Iberia:

Mas Affrica dira ſer impoſsibil,

Poder ninguem vencer o Rei terribil.


Eſte pode colher as maçãs de ouro,

Que ſamente o Terintio colher pode,

Do jugo que lhe pos o brauo Mouro,

A ceruiz inda agora nam ſacode:

Na fronte a palma leua, & o verde louro,

Das victorias do barbaro, que acode

A defender Alcaçer forte villa,

Tangere populoſo, & a dura Arzilla.


Porem ellas em fim por força entradas,

Os muros abaxarão de Diamante,

Aas Portugueſas forças coſtumadas,

A derribarem quanto achão diante,

Marauilhas em armas eſtremadas,

E de eſcriptura dinas elegante,

Fizerão caualleiros nesta empreſa

Mais, affinando a fama Portugueſa.


Porem deſpois tocado de ambição,

E gloria de mandar amara & bella,

Vay cometer Fernando de Aragão,

Sobre o potente Reino de Caſtella,

Ajuntaſe a inimiga multidão,

Das ſoberbas & varias gentes della,

Deſde Caliz ao alto Perineo,

Que tudo ao Rei Fernando obedeceo.


Não quis ficar nos Reinos occioſo,

O mancebo Ioanne, & logo ordena

De ir ajudar o pay ambicioſo,

Que então lhe foy ajuda não pequena,

Saioſe em fim do trançe perigoſo,

Com fronte não toruada, mas ſerena

Desbaratado o pay ſanguinolento:

Mas ficou duuidoſo o vencimento.


Porque o filho ſublime & ſoberano,

Gentil, forte, animoſo caualleiro,

Nos contrarios fazendo imenſo dano,

Todo hum dia ficou no campo inteiro:

Desta arte foy vencido Octauiano,

E Antonio vencedor ſeu companheiro,

Quando daquelles que Ceſar matârão

Nos Philipicos campos ſe vingârão.


Porem deſpois que a eſcura noite eterna,

Affonſo apouſentou no Ceo ſereno,

O Principe que o Reino então gouerna,

Foy Ioanne ſegundo, & Rei terzeno:

Eſte por auer fama ſempiterna,

Mais do que tentar pode homem terreno

Tentou, que foy buſcar da roxa Aurora

Os terminos, que eu vou buſcando agora.


Manda ſeus menſageiros que paſſarão

Eſpanha, França, Italia celebrada,

E la no illuſtre porto ſe embarcârão,

Onde ja foy Partenope enterrada,

Napoles onde os fados ſe moſtrârão,

Fazendoa a varias gentes ſubjugada,

Pola illuſtrar no fim de tantos annos,

Co ſenhorio de inclitos Hispanos.


Polo mar alto Siculo nauegão,

Vão ſe aas praias de Rodes arenoſas,

E dali aas ribeiras altas chegão,

Que com morte de Magno ſam famoſas:

Vão a Menfis, & aas terras que ſe regão,

Das enchentes Niloticas vndoſas,

Sobem aa Ethiopia, ſobre Egipto,

Que de Christo la guarda o ſancto rito.


Paſſam tambem as ondas Eritreas,

Que o pouo de Iſrael ſem Nao paſſou,

Ficão lhe a tras as ſerras Nabateas,

Que o filho de Ismael co nome ornou:

As coſtas odoriferas Sabeas,

Que a mãy do bello Adonis tanto honrou,

Cercão, com toda a Arabia deſcuberta

Feliz, deixando a Petrea, & a Deſerta.


Entrão no estreito Perſico, onde dura

Da confuſa Babel, inda a memoria,

Ali co Tigre o Eufrates ſe meſtura,

Que as fontes onde naſcem tem por gloria:

Dali vão em demanda da agoa pura,

Que cauſa inda ſera de larga hiſtoria

Do Indo, pellas ondas do Occeano,

Onde nam ſe atreueo paſſar Trajano.


Virão gentes incognitas, & eſtranhas

Da India, da Carmania, & Gedroſia,

Vendo varios costumes, varias manhas

Que cada Região produze & cria:

Mas de vias tão aſperas, tamanhas

Tornarſe facilmente não podia,

La morrerão em fim, & la ficârão.

Que aa deſejada patria não tornârão.


Pareſce que guardaua o claro Ceo

A Monoel, & ſeus merecimentos,

Eſta empreſa tão ardua, que o moueo

A ſubidos & illuſtres mouimentos:

(Manoel, que a Ioane ſocedeo

No reino, & nos altiuos penſamentos)

Logo como tomou do reino cargo

Tomou mais a conquiſta do mar largo.


O qual, como de nobre penſamento

Daquella obrigação, que lhe ficâra

De ſeus antepaſſados, (cujo intento,

Foy ſempre acrecentar a terra chara)

Não deixaſſe de ſer hum ſo momento

Conquiſtado: No tempo que a luz clara

Foge, & as eſtrellas nitidas que ſaem

A repouſo conuidão, quando caem.


Eſtando ja deitado no aureo leito

Onde ymaginações mais certas ſam,

Reuoluendo contino no conceito

De ſeu officio, & ſangue a obrigação,

Os olhos lhe occupou o ſonno acceito

Sem lhe deſoccupar o coração,

Porque tanto que laſſo ſe adormece

Morfeo en varias formas lhe aparece.


Aqui ſe lhe apreſenta que ſubia

Tão alto que tocaua aa prima Eſphera,

Donde diante varios mundos via

Nações de muita gente eſtranha, & fera:

E laa bem junto donde nace o dia

Deſpois que os olhos longos estendera,

Vio de antiguos longinquos & altos montes

Nacerem duas claras & altas fontes.


Aues agrestes, feras & alimarias

Pello monte ſeluatico habitauão,

Mil aruores ſylueſtres & eruas varias

O paſſo & o trato aas gentes atalhauão:

Eſtas duras montanhas aduerſarias

De mais conuerſação, por ſi moſtrauão

Que deſque Adão peccou aos noſſos annos

Não as romperão nunca pês humanos.


Das agoas ſe lhe antolha que ſaião

Por elle os largos paſſos inclinando,

Dous homẽs, que muy velhos parecião

De aſpeito, inda que agreſte, venerando:

Das pontas dos cabellos lhe ſaião

Gotas, que o corpo todo vão banhando,

A cor da pelle baça & denegrida

A barba hirſuta, intonſa, mas comprida.


Dambos de dous a fronte coroada

Ramos não conhecidos & eruas tinha,

Hum delles a preſença traz canſada

Como quem de mais longe ali caminha,

E aſsi a agoa com impito alterada

Parecia que doutra parte vinha,

Bem como Alfeo de Arcadia em Syracuſa

Vay buſcar os abraços de Aretuſa.


Eſte que era o mais graue na peſſoa

Destarte pera o Rey de longe brada,

O tu a cujos reinos & coroa

Grande parte do mundo eſta guardada,

Nos outros, cuja fama tanto voa

Cuja ceruiz bem nunca foy domada,

Te auiſamos que he tempo que ja mandes

A receber de nos tributos grandes.


Eu ſou o illuſtre Ganges, que na terra

Celeſte, tenho o berço verdadeiro,

Estoutro he o Indo Rey, que nesta ſerra

Que vês, ſeu nacimento tem primeiro:

Cuſtartemos com tudo dura guerra,

Mas inſiſtindo tu por derradeiro,

Com não viſtas victorias, ſem receyo

A quantas gentes vês poras o freyo:


Não diſſe mais o rio Illuſtre & ſancto,

Mas ambos deſparecem num momento,

Acorda Emanuel cum nouo eſpanto

E grande alteração de penſamento:

Eſtendeo niſto Febo o claro manto

Pello eſcuro Emiſperio ſomnolento:

Veyo a menham no ceo pintando as côres

De pudibunda roſa & roxas flores.


Chama o Rei os ſenhores a conſelho

E propoẽ lhe as figuras da viſam,

As palauras lhe diz do ſancto velho,

Que a todos forão grande admiração:

Determinão o nautico aparelho

Pera que com ſublime coração

Vaa a gente que mandar cortando os mares

A buſcar nouos climas, nouos ares.


Eu que bem mal cuidaua que em effeito

Se poſeſſe o que o peito me pedia,

Que ſempre grandes couſas deste geito

Preſago o coração me prometia:

Não ſey porque razão, porque reſpeito,

Ou porque bom ſinal que em mi ſe via,

Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue

Deſte cometimento grande, & graue.


E com rogo & palauras amoroſas

Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga,

Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas

Se alcanção com trabalho & com fadiga:

Faz as peſſoas altas & famoſas

A vida que ſe perde & que periga,

Que quando ao medo infame não ſe rende

Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende.


Eu vos tenho entre todos eſcolhido

Para hũa empreſa qual a vos ſe deue,

Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido,

O que eu ſey que por mi vos ſera leue:

Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido,

Auenturarme a ferro, a fogo, a neue,

He tão pouco por vos que mais me pena

Ser eſta vida couſa tão pequena.


Imaginay tamanhas auenturas

Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua,

O lião Cleonêo, Arpias duras

O porco de Erimanto, a Ydra braua:

Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras

Onde os campos de Dite a Eſtige laua,

Porque a mayor perigo, a môr affronta

Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta.


Com merces ſumptuoſas me agardece

E com razoẽs me louua eſta vontade,

Que a virtude louuada viue & crece,

E o louuor altos caſos perſuade:

A acompanharme logo ſe offerece

Obrigado damor & damizade,

Não menos cobiçoſo de honra & fama,

O charo meu Irmão Paulo da Gama.


Mais ſe me ajunta Nicolao Coello

De trabalhos muy grande ſoffredor,

Ambos ſam de valia & de conſelho

Dexperiencia em armas & furor:

Ia de manceba gente me aparelho

Em que crece o deſejo do valer,

Todos de grande esforço, & aſsi parece

Quem a tamanhas couſas ſe offerece.


Forão de Emanoel remunerados,

Porque com mais amor ſe apercebeſſem,

E com palauras altas animados

Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem:

Aſsi forão o Mynias ajuntados

Pera que o veo dourado combateſſem,

Na Fatidiça nao, que ouſou primeira

Tentar o mar Euxinio, auentureira.


E ja no porto da inclita Vliſſea

Cum aluoroço nobre, & cum deſejo,

(Onde o licor meſtura & branca area

Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:)

As naos preſtes eſtão, & não refrea

Temor nenhum o iuuenil deſpejo,

Porque a gente maritima & a de Marte

Eſtão pera ſeguirme a toda parte.


Pellas prayas vestidos os ſoldados

De varias cores vem, & varias artes,

E não menos de esforço aparelhados

Pera buſcar do mundo nouas partes:

Nas fortes naos os ventos ſoſſegados

Ondeão os aerios estandartes,

Ellas prometem vendo os mares largos

De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos.


Deſpois de aparelhados deſta ſorte

De quanto tal viagem pede & manda,

Aparelhamos a alma pera a morte

Que ſempre aos nautas ante os olhos anda:

Pera o ſumo poder que a Etherea corte

Soſtenta ſo coa vista veneranda,

Imploramos fauor que nos guiaſſe

E que noſſos começos aſpiraſſe.


Partimonos aſsi do ſancto templo

Que nas Prais do mar eſtâ aſſentado,

Que o nome tem da terra, pera exemplo,

Donde Deos foy em carne ao mundo dado:

Certifico te, o Rey, que ſe contemplo

Como fuy deſtas prayas apartado,

Cheyo dentro de duuida & receyo

Que apenas nos meus olhos ponho o freyo.


A gente da cidade aquelle dia

(Hũs por amigos, outros por parentes,

Outros por ver ſomente) concorria

Saudoſos na viſta & deſcontentes:

E nos coa virtuoſa companhia

De mil religioſos diligentes,

Em prociſſam ſolene a Deos orando

Pera os bateis viemos caminhando.


Em tão longo caminho & duuidoſo

Por perdidos as gentes nos julgauão,

As molheres cum choro piadoſo,

Os homẽs com ſuſpiros que arrancauão:

Mãis, Eſpoſas, Irmãs, que o temeroſo

Amor mais deſconfia, acrecentauão

A deſeſperação, & frio medo

De ja nos não tornar a ver tão cedo.


Qual vay dizendo: O filho a quem eu tinha

So pera refrigerio, & doce emparo

Desta canſada ja velhice minha,

Que em choro acabarâ, penoſo & amaro:

Porque me deixas, miſera & mezquinha?

Porque de mi te vas, o filho charo

A fazer o funereo enterramento

Onde ſejas de pexes mantimento?


Qual em cabello: O doce & amado eſpoſo

Sem quem não quis amor que viuer poſſa,

Porque is auenturar ao mar iroſo

Eſſa vida que he minha, & não he voſſa?

Como por hum caminho duuidoſo

Vos eſquece a afeição tão doce noſſa?

Noſſo amor, noſſo vão contentamento

Quereis que com as vellas leue o vento.


Neſtas & outras palauras que dizião

De amor, & de piadoſa humanidade,

Os velhos & os mininos os ſeguião

Em quem menos esforço poẽ a ydade:

Os montes de mais perto reſpondião

Quaſi mouidos de alta piedade,

A branca area as lagrimas banhauão

Que em multidão co ellas ſe ygoalauão.


Nos outros ſem a vista aleuantarmos

Nem a Mãy, nem a Eſpoſa, neſte eſtado,

Por nos não magoarmos, ou mudarmos

Do prepoſito firme começado:

Determiney de aſsi nos embarcarmos

Sem o deſpedimento custumado,

Que poſto que he de amor vſança boa

Aquem ſe aparta, on fica, mais magoa.


Mas hum velho daſpeito venerando,

Que ficaua nas prayas, entre a gente,

Poſtos em nos os olhos, meneando

Tres vezes a cabeça, deſcontente,

A voz peſada hum pouco aleuantando,

Que nos no mar ouuimos claramente,

Cum ſaber ſo dexperiencias feyto

Tais palauras tirou do experto peito.


O gloria de mandar, o vaã cubiça

Deſta vaidade, a quem chamamos Fama,

O fraudolento goſto, que ſe atiça

Cũa aura popular, que honra ſe chama:

Que caſtigo tamanho & que juſtiça

fazes no peito vão que muito te ama,

Que mortes, que perigos, que tormentas

Que crueldades nelles eſprimentas.


Dura inquietação dalma & da vida

Fonte de deſemparos & adulterios,

Sagaz conſumidora conhecida

De fazendas, de reinos, & de imperios:

Chamante illuſtre, chamante ſubida,

Sendo dina de infames vituperios,

Chamante Fama, & Gloria ſoberana,

Nomes com quem ſe o pouo neſcio engana.


A que nouos deſaſtres determinas

De leuar estes reynos & eſta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promeſſas de reynos, & de minas

Douro, que lhe faras tão facilmente?

Que famas lhe prometeras, que hiſtorias?

Que triumphos, que palmas, que victorias?


Mas ô tu geração daquelle inſano

Cujo peccado & deſobediencia,

Não ſomente do reino ſoberano

Te pos neſte deſterro & triſte auuſencia:

Mas inda doutro estado mais que humano

Da quieta & da ſimpres innocencia,

Idade douro, tanto te priuou

Que na de ferro & darmas te deitou.


Ia que nesta goſtoſa vaidade

Tanto enleuas a leue fantaſia,

Ia que aa bruta crueza & feridade

Poſeste nome esforço & valentia,

Ia que prezas em tanta quantidade

O deſprezo da vida, que deuia

De ſer ſempre eſtimada, pois que ja

Temeo tanto perdella quem a dâ.


Não tens junto com tigo o Iſmaelita

Com quem ſempre teras guerras ſobejas?

Não ſegue elle do Arabio a ley maldita,

Se tu polla de Chriſto ſo pellejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras & riqueza mais deſejas?

Não he elle por armas esforçado

Se queres por victorias ſer louuado?


Deixas criar aas portas o inimigo

Por yres buſcar outro de tão longe,

Por quem ſe deſpouoe o reino antigo

Se enfraqueça & ſe vaa deitando a longe:

Buſcas o incerto & incognito perigo

Porque a fama te exalte & te liſonge,

Chamando te ſenhor com larga copia

Da India, Perſia, Arabia, & de Ethiopia.


O maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas vella pôs en ſeco lenho,

Dino da eterna pena do profundo

Se he juſta a juſta ley que ſigo & tenho:

Nunca juyzo algum alto & profundo,

Nem cythara ſonora, ou viuo engenho,

Te dê por iſſo fama, nem memoria,

Mas comtigo ſe acabe o nome & gloria.


Trouxe o filho de Iapeto do Ceo

O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas accendeo

Em mortes, em deſonras (grande engano)

Quanto milhor nos fora Prometeo,

E quanto pera o mundo menos dano,

Que a tua eſtatua Illuſtre não tiuera

Fogo de altos deſejos, que a mouera.


Não cometera o moço miſerando

O carro alto do pay, nem o âr vazio

O grande Achitector co filho, dando

Hum, nome ao mar, & o outro, fama ao rio:

Nenhum cometimento alto & nefando

Por fogo, ferro, agoa, calma & frio,

Deixa intentado a humana geração:

Miſera ſorte, eſtranha Condição!

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