Canto V

by Luís Vaz de Camões · 1572 (edição princeps)
Published 01/07/1572

Eſtas ſentenças tais o velho honrado

Vociferando eſtaua, quando abrimos

As aſas ao ſereno & ſoſſegado

Vento, & do porto amado nos partimos:

E como he ja no mar cuſtume vſado

A vella desfraldando o ceo ferimos,

Dizendo Boa viagem, logo o vento

Nos troncos fez o vſado mouimento.


Entruaa neste tempo o eterno lume,

No animal Nemeyo truculento,

E o mundo que com tempo ſe conſume

Na ſeiſta idade andaua enfermo & lento:

Nella ve, como tinha por coſtume

Curſos do Sol quatorze vezes cento,

Com mais nouenta & ſete, em que corria

quando no mar a armada ſe estendia.


Ia a vista pouco & pouco ſe desterra

Daquelles patrios montes que ficauão,

Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra

De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão:

Ficauanos tambem na amada terra

O coração, que as magoas lâ diyxauão,

E ja deſpois que toda ſe eſcondeo

Não vimos mais em fim que mar & ceo.


Aſsi fomos abrindo aquelles mares

Que geração algũa não abrio,

As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares,

Que o generoſo Enrique deſcobrio:

De Mauritania os montes & lugares

Terra que Anteo num tempo poſſuyo,

Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita

Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita.


Paſſamos a grande Ilha da madeira

Que do muito aruoredo aſsi ſe chama,

Das que nos pouoamos, a primeira,

Mais celebre por nome, que por fama:

Mas nem por ſer do mundo a derradeira

Se lhe auentajão quantas Venus ama,

Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera

De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra.


Deixamos de Maſsilia a eſteril costa

Onde ſeu gado os Azenegues pastão,

Gente que as freſcas agoas nunca goſta

Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão:

A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta,

Onde as aues no ventre o ferro gastão,

Padecendo de tudo extrema inopia

Que aparta a Barbarîa de Etiopia.


Paſſamos o lemite aonde chega

O Sol, que pera o Norte os carros guia,

Onde jazem os pouos, a quem nega

O filho de Climêne a cor do dia:

Aqui gentes eſtranhas laua & rega

Do negro Sanagâ a corrente fria,

Onde o Cabo Arſinario o nome perde

Chamando ſe dos noſſos Cabo verde.


Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas

Que tiuerão por nome Fortunadas,

Entramos nauegando pollas filhas

Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas

Terras por onde nouas marauilhas

Andarão vendo jaa noſſas armadas,

Ali tomamos porto com bom vento

Por tomarmos da terra mantimento.


A aquella ilha aportamos, que tomou

O nome do guerreiro Sanctiago,

Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou

A fazerem nos Mouros brauo eſtrago:

Daqui tanto que Boreas nos ventou

Tornamos a cortar o immenſo lago,

Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos

A terra onde o refreſco doce achamos.


Por aqui rodeando a larga parte

De Africa, que ficaua ao Oriente,

A prouincia lalofo, que reparte

Por diuerſas naçoẽs a negra gente:

A muy grande Mandinga, por cuja arte,

Logramos o metal rico & luzente,

Que do curuo Gambea as agoas bebe

As quaes o largo Atlantico recebe.


As Dorcadas paſſamos, pouoadas

Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião,

Que de vista total ſendo priuadas

Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião:

Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas

Neptuno la nas agoas acendião,

Torna la ja de todas a mais fea

De biuoras encheſte a ardente area.


Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa

No grandiſsimo golfão nos metemos,

Deixando a ſerra aſperrima Lyoa

Co Cabo a quem das Palmas nome demos:

O grande rio, onde batendo ſoa

O mar nas prayas notas, que ali temos,

Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou

O nome dhum que o lado a Deos tocou.


Ali o muy grande reyno eſtâ de Congo

Por nos ja conuertido â fee de Christo,

Por onde o Zaire paſſa claro & longo

Rio pellos antigos nuca viſto:

Por eſte largo mar em fim me alongo

Do conhecido pollo de Caliſto,

Tendo o termino ardente ja paſſado

Onde o meyo do mundo he limitado.


Ia deſcuberto tinhamos diante

La no nouo Hemiſperio noua estrela

Não viſta deoutra gente, que ignorante

Algũs tempos eſteue incerta della:

Vemos a parte menos rutilante

E por falta destrellas menos bella,

Do Polo fixo, onde inda ſe não ſabe

Que outra terra comece, ou mar acabe:


Aſsi paſſando aquellas regioẽs

Por onde duas vezes paſſa Apolo,

Dous inuernos fazendo & dous veroẽs

Em quanto corre dhum ao outro Polo:

Por calmas, por tormentas & opreſſoẽs

Queſempre faz no mar o yrado Eolo,

Vimos as Vrſas a peſar de Iuno

Banharemſe nas agoas de Neptuno.


Contarte longamente as perigoſas

Couſas do mar, que os homẽs não entendem,

Subitas trouoadas temeroſas,

Relampados que o ar em fogo acendem:

Negros chuueiros, noites tenebroſas,

Bramidos de trouoẽs que o mundo fendem,

Não menos he trabalho, que grande erro

Ainda que tiuiſſe a voz de ferro.


Os caſos vi que os rudos marinheiros

Que tem por meſtra a longa experiencia,

Contão por certos ſempre & verdadeiros

Iulgando as couſas ſo polla aparencia.

E que os que tem juizos mais inteiros

Que ſo por puro engenho & por ciencia,

Vem do mundo, os ſegredos eſcondidos

Iulgão por falſos, ou mal entendidos.


Vi claramente viſto o lume viuo

Que a maritima gente tem por ſanto,

Em tempo de tormenta & vento eſquiuo

De tempeſtade eſcura & triste pranto:

Não menos foy a todos ecceſsiuo

Milagre, & couſa certo de alto eſpanto,

Ver as nuuẽs do mar com largo cano

Soruer as altas agoas do Occeano.


Eu o vi certamente (& não preſumo

Que a viſta me enganaua) leuantar ſe,

No ar hum vaporzinho & ſutil fumo

E do vento trazido, rodearſe:

De aqui leuado hum cano ao Polo ſumo

Se via, tão delgado que enxergarſe

Dos olhos facilmente não podia,

Da materia das nuuẽs parecia.


Hiaſe pouco & pouco acrecentando

E mais que hum largo maſto ſe engroſſaua,

Aqui ſe eſtreita, aqui ſe alargaquando

Os golpes grandes de agoa em ſi chupaua:

Eſtauaſe co as ondas ondeando,

Encima delle hũa nuuem ſe eſpeſſaua,

Fazendoſe mayor mais carregada

Co cargo grande dagoa em ſi tomada.


Qual roxa Sangueſuga ſe veria

Nos beiços da alimaria (que imprudente,

Bebendo a recolheo na fonte fria)

Fartar co ſangue alheyo a ſede ardente:

Chupando mais & mais ſe engroſſa & cria

Ali ſe enche & ſe alarga grandemente,

Tal a grande coluna, enchendo aumenta

A ſi, & a nuuem negra que ſuſtenta.


Mas deſpois que de todo ſe fartou

O pê que tem no mar a ſi recolhe,

E pello ceo chouendo em fim voou

Porque coa agoa a jacente agoa molhe:

Aas ondas torna as ondas que tomou:

Mas o ſabor do ſal lhe tira, & tolhe,

Vejão agora os ſabios na eſcriptura

Que ſegredos ſam estes de Natura.


Se os antigos Philoſophos, que andarão

Tantas terras, por ver ſegredos dellas,

As marauilhas que eu paſſei, paſſarão

A tão diuerſos ventos dando as vellas:

Que grandes eſcripturas que deixarão

Que influição de ſinos & de eſtrellas,

Que eſtranhezas, que grandes qualidades,

E tudo ſem mentir, puras verdades.


Mas ja o Planeta qne no ceo primeiro

Habita, cinco vezes apreſſada,

Agora meyo rosto, agora inteiro

Mostrara, em quãto o mar cortaua a armada:

Quando da Eterea gauea hum marinheiro

Prompto coa viſta, terra, terra, brada,

Salta no bordo aluoroçada a gente

Cos olhos no Orizonte do Oriente.


A maneira de nuuẽs ſe começão

A deſcubrir os montes que enxergamos,

As ancoras peſadas ſe adereção,

As vellas ja chegados amainamos:

E pera que mais certas ſe conheção

As partes tão remotas onde eſtamos,

Pello nouo inſtrumento do Astrolabio

Inuenção de ſutil juizo & ſabio.


Deſembarcamos logo na eſpaçoſa

Parte, por onde a gente ſe eſpalhou,

De ver couſas eſtranhas deſejoſa

Da terra que outro pouo não piſou:

Porem eu cos pilotos na arenoſa

Praya, por vermos em que parte eſtou,

Me detenho, em tomar do ſol a altura

E compaſſar a vniuerſal pintura.


Achamos ter de todo ja paſſado

Do Semicapro pexe a grande meta,

Eſtando entre elle & o circulo gelado

Auſtral, parte do mundo mais ſecreta:

Eis de meus companheiros rcdeado

Vejo hum eſtranho vir de pelle preta,

Que tomarão per força, em quanto apanha

De mel os doces fauos na montanha.


Toruado vem na viſta, como aquelle

Que não ſe vira nunca em tal eſtremo,

Nem elle entende a nos, nem nos a elle,

Seluagem mais que o bruto Polifemo:

Começolhe a mostrar da rica pelle

De Colcos o gentil metal ſupremo,

A prata fina, a quente eſpeciaria:

A nada disto o bruto ſe mouia.


Mando moſtrarlhe peças mais ſomenos

Contas de Chriſtalmo tranſparente,

Alguns ſoantes caſcaueis pequenos,

Hum barrete vermelho, cor contente:

Vi logo por ſinais & por acenos

Que com iſto ſe alegra grandemente,

Mando o ſoltar com tudo, & aſsi caminha

Pera a pouoação, que perto tinha.


Mas logo ao outro dia ſeus parceiros

Todos nús, & da cor da eſcura treua,

Decendo pellos aſperos outeiros

As peças vem buſcar que eſtoutro leua:

Domeſticos ja tanto & companheiros

Se nos moſtrão, que fazem que ſe atreua,

Fernão Velloſo a yr ver da terra o trato

E partirſe co elles pello mato.


He Velloſo no braço confiado

E de arrogante cre que vay ſeguro,

Mas, ſendo hum grande eſpaço ja paſſado,

Em que algum bom ſinal ſaber procuro:

Eſtando, a viſta alçada, co cuidado

No auentureyro, eis pello monte duro

Aparece, & ſegundo ao mar caminha

Mais apreſſado do que fora vinha.


O batel de Coelho foy depreſſa

Pollo tomar, mas antes que chegaſſe,

Hum Etiope ouſado ſe arremeſſa

A elle porque não ſe lhe eſcapaſſe:

Outro & outro lhe ſaem veſſe em preſſa

Velloſo, ſem que alguem lhe ali ajudaſſe,

Acudo eu logo, & em quanto o remo aperto

Se mostra hum bando negro deſcuberto.


Da eſpeſſa nuuem ſêtas & pedradas

Chouem ſobre nos outros ſem medida,

E não forão ao vento em vão deitadas

Que esta perna trouxe eu dali ferida:

Mas nos como peſſoas magoadas

A repoſta lhe demos tão tecida,

Que em mais que nos barretes ſe ſoſpeita

Que a cor vermelha leuão deſta feita.


E ſendo ja Velloſo em ſaluamento

Logo nos recolhemos pera a armada,

Vendo a malicia fea & rudo intento

Da gente beſtial, bruta & maluada:

De quem nenhum milhor conhecimento

Podemos ter da India deſejada,

Que eſtarmos inda muyto longe della

E aſsi torney a dar ao vento a vella.


Diſſe então a Velloſo hum companheiro

(Começando ſe todos a ſorrir)

Oula Vedolo amigo, aquelle outeiro

He milhor de decer que de ſubir:

Si he, reſponde o ouſado auentureiro

Mas quando eu pera ca vi tantos vir,

Daquelles caẽs, de preſſa hum pouco vim

Por me lembrar que estaueis ca ſem mim.


Contou então que tanto que paſſarão

Aquelle monte, os negros de quem fallo,

Auante mais paſſar o não deixarão,

Querendo, ſe não torna, ali matallo:

E tornando ſe, logo ſe emboſcarão

Porque ſaindo nos pera tomallo,

Nos podeſſem mandar ao reino eſcuro

Por nos roubar em mais a ſeu ſeguro.


Porem ja cinco Soes erão paſſados

Que dali nos partiramos, cortando

Os mares nunca doutrem nauegados,

Proſperamente os ventos aſſoprando:

Quando hũa noite estando deſcuidados

Na cortadora proa vigiando,

Hũa nuuem que os ares eſcurece

Sobre noſſas cabeças aparece.


Tão temeroſa vinha & carregada,

Que pos nos coraçoẽs hum grande medo,

Bramindo o negro mar, de longe brada

Como ſe deſſe em vão nalgum rochedo:

O poteſtade, diſſe, ſublimada

Que ameaço diuino, ou que ſegredo,

Eſte clima, & eſte mar nos apreſenta,

Que môr couſa parece que tormenta?


Não acabaua, quando hũa figura

Se nos mostra no ar, robuſta & valida,

De disforme & grandiſsima eſtatura,

O roſto carregado, a barba eſqualida:

Os olhos encouados, & a poſtura

Medonha & maa, & a cor terrena & palida,

Cheos de terra & creſpos os cabellos,

A boca negra, os dentes amarellos.


Tão grande era de membros, que bem poſſo

Certificarte, que este era o ſegundo

De Rodes estranhiſsimo Coloſſo,

Que hum dos ſete milagres foy do mundo:

Cum tom de voz nos falla horrendo & groſſo

Que pareceo ſair do mar profundo,

Arrepião ſe as carnes & o cabello

A mi, & a todos, ſoo de ouuillo & vello.


E diſſe: O gente ouſada mais que quantas

No mundo cometerão grandes couſas,

Tu que por guerras cruas, taes & tantas

E por trabalhos vãos munca repouſas:

Pois os vedados terminos quebrantas

E nauegar meus longos mares ouſas,

Que eu tãto tempo ha ja que guardo, & tenho

Nunca arados deſtranho, ou proprio lenho.


Pois vens ver os ſegredos eſcondidos

Da natureza, & do humido elemento,

A nenhum grande humano concedidos

De nobre, ou de immortal merecimento:

Ouue os danos de mi, que apercebidos

Eſtão, a teu ſobejo atreuimento,

Por todo o largo mar & polla terra

Que inda has de ſojugar com dura guerra.


Sabe que quantas naos eſta viagem

Que tu fazes, fizerem de atreuidas

Inimiga terão esta paragem

Com ventos & tormentas deſmedidas:

E da primeira armada que paſſagem

Fizer por eſtas ondas inſuffridas,

Eu farey dimprouiſo tal caſtigo

Que ſeja môr o dano que o perigo.


Aqui eſpero tomar ſe não me engano

De quem me deſcobrio ſuma vingança,

E não ſe acabarâ ſo nisto o dano

De voſſa pertinace confiança:

Antes em voſſas naos vereys cada anno

Se he verdade o que meu juyzo alcança,

Naufragios, perdiçoẽs de toda ſorte,

Que o menor mal de todos ſeja a morte.


E do primeiro Illuſtre, que a ventura

Com fama alta fizer tocar os Ceos,

Serey eterna & noua ſepoltura

Por juizos incognitos de Deos:

Aqui porà da Turca armada dura

Os ſoberbos & proſperos tropheos,

Comigo de ſeus danos o ameaça

A destruida Quiloa com Mombaça.


Outro tambem virâ de honrada fama

Liberal, caualeiro, enamorado,

E conſigo trarâ a fermoſa dama

Que Amor por gram merce lhe terâ dado:

Triſte ventura, & negro fado os chama

Neste terreno meu, que duro & yrado,

Os deixarâ dhum crú naufragio viuos

Pera verem trabalhos ecceſtiuos.


Verão morrer com fome os filhos charos

Em tanto amor gêrados & nacidos,

Verão os Cafres aſperos & auaros

Tirar aa linda dama ſeus veſtidos:

Os cristalinos membros & perclaros

Aa calma, ao frio, no ar verão deſpidos,

Deſpois de ter piſada longamente

Cos delicados pês a area ardente.


E verão mais osolhos que eſcaparem

De tanto mal, de tanta deſuentura,

Os dous amantes miſeros ficarem

Na ſeruida & implacabil eſpeſſura:

Ali deſpois que as pedras abrandarem

Com lagrimas de dôr, de magoa pura,

Abraçados as almas ſoltaram

Da fermoſa & miſerrima priſam.


Mais hia por diante o monstro horrendo

Dizendo noſſos fados, quando alçado

Lhe diſſe eu: Quem es tu? que eſſe estupendo

Corpo, certo me tem marauilhado

A boca & os olhos negros retorcendo,

E dando hum eſpantoſo & grande brado,

Me reſpondeo, com voz peſada & amara

Como quem da pregunta lhe peſara.


Eu ſou aquelle occulto & grande Cabo

A quem chamais vos outros Tormentorio,

Que nunca a Ptolomeu, Pomponio, Eſtrabo,

Plinio, & quantos paſſarão fuy notorio:

Aqui toda a Africana coſta acabo

Neſte meu nunca viſto Promontorio,

Que pera o Polo Antariuo ſe eſtende

A quem voſſa ouſadia tanto offende.


Fuy dos filhos aſperrimos da terra

Qual Encelado, Egeo, & o Centimano,

Chameime Adamaſtor,& fuy na guerra

Contra o que vibra os rayos de Vulcano:

Não que poſeſſe ſerra ſobre ſerra

Mas conquiſtando as ondas do Occeano,

Fuy capitão domar, par onde andaua

A armada de Neptuno, que eu buſcaua.


Amores da alta eſpoſa de Peleo

Me fizerão tomar tamanha empreſa,

Todas as Deoſas deſprezey do ceo

So par amar das agoas a Princeſa:

Hum dia a vi coas filhas de Nereo

Sayr nua na praya, & logo preſa,

A vontade ſinti, de tal maneira

Que inda não ſinto couſa que mais queira.


Como foſſe impoſsibil alcançalla

Polla grandeza fea de meu geſto,

Determiney por armas de tomalla

E a Doris eſte caſo manifeſto:

De medo a Deoſa então por mi lhe falla:

Mas ella cum fermoſo riſo honesto,

Reſpondeo: Qual ſera o amor baſtante

De Nimpha que ſuſtente o dhum Gigante.


Com tudo por liurarmos o Occeano

De tanta guerra, eu buſcarey maneira,

Com que com minha honra eſcuſe o dano.

Tal reſpoſta me torna a menſageira:

Eu que cair não pude neste engano,

(Que he grande dos amantes a cigueira)

Encherãome com grandes abondanças

O peito de deſejos & eſperanças.


Ia neſcio, ja da guerra deſiſtindo

Hũa noite de Doris prometida,

Me aparece de longe o geſto lindo

Da branca Thetis vnica deſpida:

Como doudo corri de longe, abrindo

Os braços, pera aquella que era vida

Deſte corpo, & começo os olhos bellos

A lhe beijar, as faces & os cabellos.


O que não ſey de nojo como o conte

Que crendo ter nos braços quem amaua,

Abraçado me achey cum duro monte

De aſpero mato, & de eſpeſſura braua:

Eſtando cum penedo fronte a fronte

Queu pollo roſto angelico apartaua,

Não fiquey homem não, mas mudo & quedo

E junto dhum penedo outro panedo


O Nimpha a mais fermoſa do Oceano

Ia que minha preſença não te agrada,

Que te cuſtaua terme neſte engano,

Ou foſſe monte, nuuem, ſonho, ou nada:

Daqui me parto irado, & quaſi inſano

Da magoa & da deſonra ali paſſada,

A buſcar outro mundo, onde não viſſe

Quem de meu pranto, & de meu mal ſe riſſe.


Erão ja neſte tempo meus Irmãos

Vencidos & em miſeria estrema poſtos,

E por mais ſegurarſe os Deoſes vãos

Algũs a varios montes ſottopostos:

E como contra o Ceo não valem mãos,

Eu que chorando andaua meus deſgoſtos,

Comecey a ſentir do fado imigo

Por meus atreuimentos o caſtigo.


Conuerteſeme a carne em terra dura,

Em penedos os oſſos ſe fizerão,

Eſtes membros que ves & esta figura

Por eſtas longas agoas ſe estenderão:

Em fim minha grandiſsima eſtatura

Neſte remoto cabo conuerterão

Os Deoſes, & por mais dobradas magoas

Me anda Thetis cercando deſtas agoas.


Aſsi contaua & cum medonho choro

Subito dante os olhos ſe apartou,

Desfez ſe a nuuem negra, & cum ſonoro

Bramido, muito longe o mar ſoou:

Eu, leuantando as mãos ao ſancto coro

Dos Anjos, que tão longe nos guiou,

A Deos pedi que remoueſſe os duros

Caſos, que Adamaſtor contou futuros.


Ia Phlegon, & Pyrois vinhão tirando

Cos outros dous o carro radiante,

Quando a terra alta ſe nos foy mostrando

Em que foy conuertido o grão gigante:

Ao longo desta costa, começando

Ia de cortar as ondas do Leuante,

Por ella abaixo hum pouco nauegamos

Onde ſegunda vez terra tomamos.


A gente que eſta terra poſſuya

Poſto que todos Etiopes erão,

Mais humana no trato parecia

Que os outros, que tão mal nos receberão:

Com bailos & com feſtas de alegria

Pella praya arenoſa a nos vierão,

As molheres conſigo & o manſo gado

Que apacentauão, gordo & bem criado.


As molheres queimadas vem encima

Dos vagaroſos bois, ali ſentadas

Animais que elles tem em mais eſtima

Que todo o outro gado das manadas:

Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima,

Na ſua lingua cantão concertadas,

Co doce ſom das rusticas auenas

Imitando de Titiro as Camenas.


Eſtes como na viſta prazenteiros

Foſſem, humanamente nos tratarão,

Trazendonos galinhas & carneiros

A troco doutras peças que leuarão:

Mas como nunca em fim meus companheiros

Palaura ſua algũa lhe alcançarão

Que deſſe algun ſinal do que buſcamos:

As vellas dando, as ancoras leuamos.


Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo

Aa coſta negra de Africa, & tornaua

A proa a demandar o ardente meyo

Do Ceo, & o polo Antartico ficaua:

Aquelle ilheo deixamos, onde veyo

Outra armada primeira, que buſcaua

O tormentorio Cabo, & deſcuberto,

Naquelle ilheo fez ſeu limite certo.


Daqui fomos cortando muitos dias

Entre tormentas tristes & bonanças,

No largo mar fazendo nouas vias

So conduzidos de arduas eſperanças:

Co mar hum tempo andamos em porfias

Que como tudo nelle ſam mudanças,

Corrente nelle achamos tão poſſante

Que paſſar não deixaua por diante.


Era mayor a força em demaſia

Segundo pera tras nos obrigaua,

Do mar, que cantro nos ali corria

Que por nos a do vento que aſſopraua:

Injuriado Noto da porfia

Em que co mar (parece) tanto eſtaua

Os aſſopros esforça iradamente

Com que nos fez vencer a grão corrente.


Trazia o Sol o dia celebrado

Em que tres Reis das partes do Oriente,

Forão buſcar hum Rey de pouco nado

No qual Rey outros tres ha juntamente:

Neſte dia outro porto foy tomado

Por nos, da meſma ja contada gente,

Num largo rio, ao qual o nome demos

Do dia em que por elle nos metemos.


Deſta gente refreſco algum tomamos,

E do rio freſca agoa, mas com tudo

Nenhum ſinal aqui da India achamos

No pouo com nos outros caſi mudo:

Ora vê Rey quamanha terra andamos

Sem ſair nunca deſte pouo rudo,

Sem vermos nunca noua, nem ſinal,

Da deſejada parte Oriental.


Ora imagina agora quam coitados

Andariamos todos, quam pardidos,

De fomes, de tormentas quebrantados

Por climas & por mares não ſabidos:

E do eſperar comprido tão canſados

Quanto a deſeſperar ja compellidos,

Por ceos não naturais, de qualidade

Inimiga de noſſa humanidade.


Corrupto ja & danado o mantimento

Danoſo & mão ao fraco corpo humano,

E alem diſſo nenhum contentamento

Que ſequer da eſperança foſſe engano:

Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento

De ſoldados, não fora Luſitano,

Que durara elle tanto obediente

Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente?


Cres tu que ja não forão leuantados

Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira,

Fazendo ſe Piratas, obrigados

De deſeſperação, de fome, de ira?

Grandemente, porcerto eſtão prouados

Pois que nenhum trabalho grande os tira

Daquella Portugueſa alta eccellencia

De lealdade firme, & obediencia.


Deixando o porto em fim do doce rio

E tornando a cortar a agoa ſalgada,

Fizemos deſta costa algum deſuio

Deitando pera o pego toda a armada:

Porque ventando Noto manſo & frio

Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada,

Que a coſta faz ali daquella banda

Donde a rica Sofala o ouro manda.


Eſta paſſada, logo o leue leme

Encomendado ao ſacro Nicolao,

Pera onde o mar na coſta brada & geme

A proa inclina dhũa & doutra nao.

Quando indo o coração que eſpera & teme

E que tanto fiou dhum fraco pao,

Do que eſparaua ja deſeſperado

Foy dhũa nouidade aluoroçado.


E foy, que eſtando ja da costa perto

Onde as prayas & valles bem ſe vião,

Num rio, que ali ſae ao mar aberto

Bateis aa vela entrauão & ſayão:

Alegria muy grande foy porcerto

Acharmos ja peſſoas que ſabião

Neuegar, porque entrellas eſperamos

De achar nouas algũas, como achamos.


Ethiopes ſam todos, mas parece

Que com gente milhor comunicauão,

Palaura algũa Arabia ſe conhece

Entre a lingoagem ſua que falauão.

E com pano delgado que ſe tece

De algodão, as cabeças apertauãa,

Com otro que de tinta azul ſe tinge

Cadahum as vergonhoſas partes cinge.


Pella Arabica lingoa que mal falão,

E que Fernão martinz muy bem entende

Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão

As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende.

Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão

Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende

E do Sul pera o Sol, terra onde auia

Gente aſsi como nos da cor do dia.


Muy grandemente aqui nos alegramos

Coa gente, & com as nouas muito mais.

Pellos ſinais que neſte rio achamos

O nome lhe ficou dos bons ſinais:

Hum padrão neſta terra aleuantamos

Que pera aſinalar lugares tais

Trazia alguns, o nome tem do bello

Guiador de Tobias a Gabello.


Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos,

Nojoſa criação das agoas fundas,

Alimpamos as naos, que dos caminos

Longos do mar, vem ſordidas & immundas:

Dos oſpedes que tinhamos vizinhos

Com moſtras apraziueis & jocundas,

Ouuemos ſempre o vſado mantimento

Limpas de todo o falſo penſamento.


Mas não foy, da eſperança grande & immenſa

Que neſta terra ouuemos, limpa & pura

A alegria: mas logo a recompenſa

A Ramnuſia com noua deſuentura:

Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa,

Coesta condição peſada & dura

Nacemos, o peſar terâ firmeza,

Mas o bem logo muda a natureza.


E foy que de doença crua & feya

A mais que eu nunca vi, deſempararão

Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia

Os oſſos pera ſempre ſepultarão:

Quem auerâ que ſem o ver o creya

Que tão disformemente ali lhe incharão,

As gingiuas na boca, que crecia

A carne, & juntamente apodrecia.


Apodrecia cum fetido & bruto

Cheiro, que o âr vizinho inficionaua,

Não tinhamos ali medico aſtuto,

Sururgião ſutil menos ſe achaua:

Mas qualquer neste officio pouco inſtructo

Pella carne ja podre aſsi cortaua,

Como ſe fora morta, & bem conuinha

Pois que morto ficaua quem a tinha.


Em fim que neſta incognita eſpeſſura

Deixamos pera ſempre os companheiros,

Que em tal caminho & em tanta deſuentura

Forão ſempre com noſco auentureiros:

Quam facil he ao corpo a ſepultura

Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros,

Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos,

Receberão de todo o illuſtre os oſſos.


Aſsi que deſte porto nos partimos

Com mayor eſperança & mòr triſteza,

E pella coſta abaixo o mar abrimos

Buſcando algum ſinal de mais firmeza:

Na dura Moçambique em fim ſurgimos,

De cuja falſidade & mâ vileza

Ia ſeras ſabedor, & dos enganos

Dos pouos de Mombaça pouco humanos.


Ate que aqui no teu ſeguro porto,

Cuja brandura & doce tratamento,

Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto,

Nos trouxe a piedade do alto aſſento:

Aqui repouſou, aqui doce conforto,

Noua aquietação do penſamento

Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte,

Te contey tudo quanto me pediste.


Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo

Gentes que tais caminhos cometeſſem?

Crês tu que tanto Eneas & o facundo

Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem?

Ouſou algum a ver do mar profundo

Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem,

Do que eu vi, a poder desforço & de arte,

E do que inda ei de ver, a oitaua parte?


Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia

Sobre quem tem contenda peregrina,

Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia,

Atenas, Yos, Argo, & Salamina:

E ſoutro que eſclarece toda Auſonia,

A cuja voz altiſona & diuina

Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece,

Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece.


Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos

Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção,

Fingindo Magas Circes, Polifemos,

Syrenas que co canto os adormeção:

Dem lhe mais nauegar â vella & remos

Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem

Os companheiros em goſtando o Loto,

Dem lhe perder nas agoas o Piloto.


Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem

Dos odres, & Calipſos namoradas,

Harpias, que o manjar lhe contaminem

Decer aas ſombras nuas ja paſſadas:

Que por muito & por muito que ſe afinem

Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas,

A verdade que eu conto nua & pura

Vence toda grandiloca eſcriptura.


Da boca do facundo capitão

Pendendo eſtauão todos embibidos,

Quando deu fim aa longa narração

Dos altos feitos grandes & ſubidos:

Louua o Rey o ſublime coração

Dos Reis em tantas guerras conhecidos,

Da gente louua a antiga fortaleza,

A lealdade danimo & nobreza.


Vay recontando o pouo que ſe admira

O caſo cada qual que mais notou,

Nenhum delles da gente os olhos tira

Que tão longos caminhos rodeou:

Mas ja o mancebo Delio as redeas vira

Que o irmão de Lampecia mal guiou,

Por vir a deſcanſar nos Thetios braços

E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços.


Quam doce he o louuor & a juſta gloria

Dos proprios feitos, quando ſam ſoados,

Qualquer nobre trabalha que em memoria

Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados:

As enuejas da illustre & alhea hiſtoria

Fazem mil vezes feitos ſublimados,

Quem valeroſas obras exercita

Louuor alheo muito o eſperta & incita.


Não tinha em tanto os feitos glorioſos

De Achiles, Alexandro na pelleja,

Quanto de quem o canta, os numeroſos

Verſos, iſſo ſo louua, iſſo deſeja:

Os tropheos de Melciades famoſos

Temiſtocles deſpertão ſo de enueja,

E diz, que nada tanto o deleitaua

Como a vez que ſeus feitos celebraua.


Trabalha par moſtrar Vaſco da Gama

Que eſſas nauegaçoẽs que o mundo canta,

Não merecem tamanha gloria & fama:

Como a ſua, que o ceo & a terra eſpanta:

Si mas aquelle Heroe que eſtima & ama

Com doẽs, merces, fauores, & honra tanta

A lira Mantuana faz que ſoe

Eneas, & a Romana gloria voe.


Dâ a terra Luſitana Scipioẽs

Ceſares, Alexandros, & da Auguſtos,

Mas não lhe dâ com tudo aquelles doẽs

Cuja falta os faz duros & robustos

Octauio, entre as mayores opreſſoẽs

Compunha verſos doutos & venuſtos,

Não dirâ Fuluia certo que he mentira

Quando a deixaua Antonio por Glafira.


Vay Ceſar ſojugando toda França

E as armas não lhe empedem a ſciencia,

Mas nũa mão a pena, & noutra a lança

Igoalaua de Cicero a eloquencia:

O que de Scipião ſe ſabe & alcança

He nas comedias grande experiencia,

Lia Alexandro a Homero de maneira

Que ſempre ſe lhe ſabe aa cabeceira.


Em fim não ouue forte capitão

Que não foſſe tambem douto & ſciente,

Da Lacia, Grega, ou Barbara nação

Se não da Portugueſa tão ſomente:

Sem vergonha o não digo, que a rezão

Dalgum não ſer por verſos excelente,

He não ſe ver prezado o verſo & rima,

Porque quem não ſabe arte não na eſtima.


Por iſſo & não por falta de Natura

Não ha tambem Virgilios nem Homeros,

Nem auerâ ſe eſte coſtume dura

Pios Eneas, nem Achiles feros:

Mas o pior de tudo he que a ventura

Tão aſperos os fez, & tão Austeros,

Tão rudos, & de ingenho tão remiſſo

Que a muitos lhe dâ pouco, ou nada diſſo.


Aas Muſas agardeça o noſſo Gama

O muito amor da patria, que as obriga

A dar aos ſeus na lira nome & fama

De toda a illuſtre & bellica fadiga:

Que elle, nem quem na eſtirpa ſeu ſe chama,

Caliope não tem por tão amiga,

Nem as filhas do Tejo, que deixaſſem

As tellas douro fino, & que o cantaſſem.


Porque o amor fraterno & puro gosto

De dar a todo o Luſitano feito

Seu louuor, he ſomente o proſuposto

Das Tagides gentis, & ſeu reſpeito:

Porem não deixe em fim de ter deſpoſto

Ninguem a grandes obras ſempre o peito,

Que por eſta, ou por outra qualquer via

Não perdera ſeu preço & ſua valia.

#colonialismo #cristianismo #exploração marítima #luis vaz de camoes

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