Canto VII

by Luís Vaz de Camões · 1572 (edição princeps)
Published 01/07/1572

Ia ſe viã chegados junto aa terra,

Que deſejada ja de tantos fora,

Que entre as correntes Indicas ſe encerra,

E o Ganges, que no çeo terreno mora:

Ora ſus gente forte que na guerra

Quereis leuar a palma vencedora,

Ia ſois chegados, ja tendes diante

A terra de riquezas abundante.


A vos, ô geraçam de Luſo digo,

Que tam pequena parte ſois no mundo:

Não digo inda no mundo, mas no amigo

Curral de quem gouerna o çeo rotundo:

Vos, a quem não ſomente algum perigo

Eſtorua conquiſtar o pouo inmundo:

Mas nem cobiça, ou pouca obediencia

Da Madre, que nos çeos eſtâ em eſſencia.


Vos Portugueſes poucos, quanto fortes,

Que o fraco poder voſſo não peſais,

Vos que aa cuſta de voſſas varias mortes

A lei da vida eterna dilatais:

Aſsi do çeo deitadas ſam as ſortes,

Que vos por muito poucos que ſejais,

Muito façais na ſancta Chriſtandade:

Que tanto, ô Chriſto exaltas a humildade.


Vedelos Alemães, ſoberbo gado,

Que por tam largos campos ſe apacenta,

Do ſucceſſor de Pedro rebelado,

Nouo paſtor, & noua ceita inuenta:

Vedelo em feas guerras occupado,

Que inda co cego error ſe nam contenta,

Não contra o ſuperbiſsimo Otomano:

Mas por ſair do jugo ſoberano.


Vedelo duro Ingles, que ſe nomea

Rei da velha & ſanctiſsima cidade,

Que o torpe Iſmaelita ſenhorea,

(Quem via honra tam longe da verdade)

Entre as Boreais neues ſe recrea,

Noua maneira faz de Chriſtandade,

Pera os de Christo tem a eſpada nua,

Nem por tomar a terra que era ſua.


Guardalhe por entanto hum falſo Rei,

A cidade Hieroſolima terreste,

Em quanto elle não guarda a ſancta lei,

Da cidade Hieroſolima celeſte:

Pois de ti Gallo indigno que direy?

Que o nome Christianiſsimo quiſeste,

Nem pera defendelo, nem guardalo,

Mas para ſer contra elle, & derribalo.


Achas que tẽs direito em ſenhorios

De Chriſtãos, ſendo o teu tam largo & tãto.

E nam contra o Cynifio & Nilo rios

Inimigos do antigo nome ſancto,

Ali ſe ande prouar da eſpada os fios,

Em quem quer reprouar da Ygreja o canto,

De Carlos, de Luis, o nome & a terra

Erdaſte, & as cauſas nam da justa guerra?


Pois que direy daquelles que em delicias,

Que o vil ocio no mundo traz conſigo,

Gastão as vidas, logrão as diuicias,

Eſquecidos de ſeu valor antigo:

Naſcem da tyrania inimicicias,

Que o pouo forte tem de ſi inimigo,

Contigo Italia fallo, ja ſumerſa

Em vicios mil, & de ti meſma aduerſa.


O miſeros Chriſtãos, pola ventura

Sois os dentes de Cadmo deſparzidos,

Que hũs aos outros ſe dão aa morte dura,

Sendo todos de hum ventre produzidos?

Nem vedes a diuina ſepultura

Poſſuida de cães, que ſempre vnidos

Vos vem tomar a voſſa antiga terra,

Fazendo ſe famoſas pela guerra?


Vedes que tem por vſo & por decreto,

Do qual ſam tão inteiros obſeruantes,

Ajuntarem o exercito inquieto,

Contra os pouos, que ſam de Chriſto amantes.

Entre vos nunca deixa a fera Aleto

De ſamear cizanias repugnantes,

Olhay ſeſtais ſeguros de perigos,

Que elles & vos, ſois voſſos inimigos.


Se cobiça de grandes ſenhorios

Vos faz yr conquiſtar terras alheas,

Nam vedes que Pactolo & Hermo rios,

Ambos voluem auriferas areas,

Em Lidia, Aſsiria laurão de ouro os fios,

Affrica eſconde em ſi luzentes veas,

Mouauos ja ſe quer riqueza tanta,

Pois mouer vos não pode a caſa Sancta.


Aquellas inuenções feras & nouas,

De instrumentos mortais da artelharia,

Ia deuem de fazeras duras prouas,

Nos muros de Bizancio, & de Turquia:

Fazei que torne la aas ſilueſtres couas,

Dos Caspios montes, & da Citia fria,

A Turca geração, que multiplica

Na policia da voſſa Europa rica.


Gregos, Traces, Armenios, Georgianos

Bradando vos eſtão, que o pouo bruto

Lhe obriga os caros filhos aos profanos

Preceptos do alcorão (duro tributo)

Em caſtigar.os feitos inhumanos

Vos gloriay de peito forte, & aſtuto,

E não queirais louuores arrogantes,

De ſerdes contra os voſſos muy poſſantes.


Mas em tanto que cegos, & ſedentos

Andais de voſſo ſangue, o gente inſana,

Não faltarão Christãos atreuimentos,

Neſta pequena caſa Luſitana

De Affrica tem maritimos aſſentos,

He na Aſia mais que todas ſoberana,

Na quarta parte noua os campos ara,

E ſe mais mundo ouuera la chegâra.


E vejamos em tanto que aconteçe

Aaquelles tam famoſos nauegantes,

Deſpois que a branda Venus enfraqueçe

O furor vão dos ventos repugnantes:

Deſpois que a larga terra lhe apareçe,

Fim de ſuas perfias tam conſtantes,

Onde vẽ ſamear de Christo a ley,

E dar nouo coſtume, & nouo Rei.


Tanto que aa noua terra ſe chegârão,

Leues embarcações de peſcadores

Acharão, que o caminho lhe moſtrârão

De Calecu onde eram moradores:

Pera la logo as proas ſe inclinarão,

Porque esta era a cidade das milhores

Do Malabar milhor, onde viuia

O Rei que a terra toda poſſuia.


Alem do Indo jaz, & âquem do Gange,

Hum terreno muy grande, & aſſaz famoſo

Que pela parte Auſtralo mar abrange,

E pera o Norte o Emodio cauernoſo.

Iugo de Reis diuerſos o conſtrange

A varias leis: algũs o vicioſo

Mahoma, algũs os Idolos adorão,

Algũs os animais, que entre elles morão.


La bem no grande monte, que cortando

Tam larga terra, toda Aſia diſcorre,

Que nomes tam diuerſos vai tomando,

Segundo as regiões por onde corre,

As fontes ſaem, donde vem manando

Os rios, cuja gram corrente morre

No mar Indico, & cercão todo o peſo

Do terreno, fazendo o Cherſoneſo.


Entre hum & o outro rio, em grande eſpaço

Say da larga terra hũa longa ponta

Quaſi piramidal, que no regaço

Do mar com Ceilão inſula confronta,

E junto donde naſce o largo braço

Gangetico, o rumor antigo conta.

Que os vizinhos da terra moradores

Do cheiro ſe mantem das finas flores.


Mas agora de nomes, & de vſança,

Nouos & varios ſam os habitantes:

Os Delijs, os Patanes, que em poſſança

De terra, & gente, ſam mais abundantes,

Decanis, Oriâs, que a eſperança

Tem de ſua ſaluação nas reſonantes

Agoas do Gange, & a terra de Bengala

Fertil de ſorte que outra não lhe igoala.


O Reino de Cambaia bellicoſo

(Dizem que foy de Poro Rei potente)

O Reino de Narſinga poderoſo,

Mais de ouro & pedras, que de forte gente:

Aqui ſe enxerga la do mar vndoſo

Hum monte alto, que corre longamente,

Seruindo ao Malabar de forte muro,

Com que do Canarâ viue ſeguro.


Da terra os naturais lhe chamão Gate,

Do pê do qual pequena quantidade

Se eſtende hũa ſralda eſtreita, que combate

Do mar a natural ferocidade:

Aqui de outras cidades ſem debate,

Calecu tem a illuſtre dignidade,

De cabeça de Imperio rica, & bella,

Samorim ſe intitula o ſenhor della.


Chegada a frota ao rico ſenhorio,

Hum Portugues mandado logo parte,

A fazer ſabedar o Rei gentio

Da vinda ſua a tam remota parte:

Entrando o menſageiro pelo Rio,

Que ali nas ondas entra, a não viſta arte

A cor, o geſto estranho, o trajo nouo

Fez concorrer a vello todo o pouo.


Entre a gente que a vello concorria,

Se chega hum Mahometa, que naſcido

Fora na região da Berberia,

La onde fora Anteo obedecido.

Ou pela vezinhança ja teria

O Reino Luſitano conhecido,

Ou foy ja aſsinalado de ſeu ferro,

Fortuna o trouxe a tam longo desterro.


Em vendo o menſageiro com jocundo

Roſto, como quem ſabe a lingoa Hiſpana

Lhe diſſe, quem te trouxe a eſtoutro mundo,

Tam longe da tua patria Luſitana?

Abrindo lhe reſponde o mar profundo,

Por onde nunca veio gente humana,

Vimos buſcar do Indo o grão corrente,

Por onde a Lei diuina ſe acrecente.


Eſpantado ficou da gram viajem,

O mouro qne Monçaide ſe chamaua,

Ouuindo as opreſſoẽs que na paſſajem

Do mar, o Luſitano lhe contaua,

Mas vendo em fim, que a força da menſajem

So pera o Rei da terra releuaua,

Lhe diz que eſtaua fora da cidade.

Mas de caminho pauca quantidade.


E que em tanto que a noua lhe chegeſſe

De ſua estranha vinda, ſe queria

Na ſua pobre caſa repouſaſſe,

E do manjar da terra comeria:

E deſpois que ſe hum pouco recreaſſe,

Coelle pera a armada tornaria,

Que alegria não pode ſer tamanha,

Que achar gente vezinha em terra eſtranha.


O Portuegues aceita de vontade

O que o ledo Monçaide lhe offerece

Como ſe longa fora ja a amizade,

Coelle come & bebe, & lhe obedeçe:

Ambos ſe tornão logo da cidade,

Pera a frota, que o Mouro bem conheçe,

Sobem aa Capitaina, & toda a gente

Monçaide recebeo benignamente.


O Capitão o abraça em cabo ledo,

Ouuindo clara a lingoa de Caſtella,

Iunto de ſi o aſſenta, & prompto & quedo

Pela terra pergunta, & couſas della:

Qual ſe ajuntaua em Rodope o aruoredo,

So por ouuir o amante da donzella

Euridiçe, tocando a lira de ouro,

Tal a gente ſe ajunta a ouuir o Mouro.


Elle começa, o gente que a natura

Vizinha fez de meu paterno ninho,

Que deſtino tam grande, ou que ventura

Vos trouxe a cometerdes tal caminho:

Nam he ſem cauſa não occulta, & eſcura

Vir do longinco Tejo, & ignoto Minho,

Por mares nunca doutro lenho arados,

A Reinos tam remotos & apartados.


Deos por certo vos traz, porque pretende

Algum ſeruiço ſeu por vos obrado:

Por iſſo ſo vos guia, & vos defende

Dos imigos do mar, do vento yrado:

Sabey que estais na India, onde ſe estende

Diuerſo pouo, rico & proſperado,

De ouro luzente, & fina pedraria,

Cheiro ſuaue, ardente eſpeciaria.


Eſta prouincia, cujo porto agora

Tomado tendes, Malabar ſe chama,

Do culto antigo os Ydolos adora,

Que ca por estas partes ſe derrama:

De diuerſos Reis he, mas dum ſo fora

Noutro tempo, ſegundo a antiga fama,

Saramâ Perimal foy derradeiro

Rei, que este Reino teue vnido & inteiro.


Porem como a eſta terra entam vieſſem,

De la do ſeyo Arabico outras gentes,

Que o culto Mahometico trouxeſſem,

No qual me inſtituirão meus parentes,

Succedeo que pregando conuerteſſem

O Perimal, de ſabios & elloquentes,

Fazem lhe a ley tomar com feruor tanto,

Que proſupos de nella morrer ſancto.


Naos arma, & nellas mete curioſo

Mercadoria que offereça rica,

Pera yr nellas a ſer religioſo,

Onde o prepheta jaz, que a ley pubrica:

Antes que parta, o Reino poderoſo

Cos ſeus reparte, porque não lhe fica

Erdeiro proprio, faz os mais aceitos,

Ricos de pobres, liures de ſojeitos.


A hum Cochim, & a outro Cananor,

A qual Chale, a qual a ilha da pimenta,

A qual Coulão, a qual dâ Cranganor

E os mais, a quem o mais ſerue & contenta

Hum ſo moço, a quem tinha muito amor,

Deſpois que tudo deu, ſe lhe apreſenta,

Pera este Calecu ſomente fica,

Cidade ja por tracto nobre & rica.


Eſta lhe dâ co titulo excellente

De Emperador, que ſobre os outros mande,

Iſto feito ſe parte diligente,

Pera onde em ſancta vida acabe, & ande,

E daqui fica o nome de potente

Camorî, mais que todos digno, & grande

Ao moço & deſcendentes, donde vem

Eſte, que agora o Imperio manda & tem.


A ley da gente toda rica & pobre,

De fabulas compoſta ſe imagina:

Andão nûs, & ſomente hum pano cobre

As partes, que a cubrir natura inſina:

Dous modos ha de gente, porque a nobre

Naires chamados ſam, & a menos digna

Poleâs tem por nome, a quem obriga

A ley não mesturar a casta antiga


Porque os q̃vſaram ſempre hum mesmo officio,

De outro nam podẽ receber conſorte,

Nem os filhos teram outro exercicio,

Senão o de ſeus paſſados ate morte,

Pera os Neires he certo grande viçio

Deſtes ſerem tocados de tal ſorte,

Que quando algum ſe toca por ventura,

Com ceremonias mil ſe alimpa & apura.


Deſta ſorte o Iudaico pouo antigo

Nem tocaua na gente de Samaria,

Mais eſtranhezas inda das que digo

Neſta terra vereis de vſança varia,

Os Naires ſos ſam dados ao perigo

Das armas, ſos defendem da contraria

Banda o ſeu Rei, trazendo ſempre vſada

Na ezquerda a adarga, e na dereita a eſpada:


Bramenes ſam os ſeus religioſos,

Nome antigo, & de grande preminencia,

Obſeruão os preceitos tam famoſos

Dhum, que primeiro pos nome aa ciencia:

Nem matão couſa viua, & temeroſos

Das carnes tem grandiſsima abstinencia,

Somente no venereo ajuntamento

Tem mais licença, & menos regimento.


Gerais ſam as molheres: mas ſomente

Pera os da geração de ſeus maridos:

Ditoſa condiçam, ditoſa gente,

Que nam ſam de ciumes offendidos.

Eſtes & outros costumes variamente

Sam pelos Malabares admitidos,

A terra he groſſa em trato, em tudo aquilo

Que as ondas podem dar da China ao Nilo.


Aſsi contaua o Mouro: mas vagando

Andaua a fama ja pela cidade,

Da vinda deſta gente estranha, guando

O Rei ſaber mandaua da verdade,

Ia vinham pelas ruas caminhando,

Rodeados de todo ſexo, & idade,

Os principaes que o Rei buſcar mandâra,

O Capitão da armada que chegâra.


Mas elle, que do Rei ja tem licença

Pera deſembarcar, acompanhado

Dos nobres Portugueſes ſem detença

Parte de ricos panos adornado:

Das cores a fermoſa diferença

A viſta alegra ao pouo aluoroçado,

O remo compaſſado fere frio

Agora o mar, despois o freſco rio.


Na praia hum regedor do Reino eſtaua,

Que na ſua lingoa Catual ſe chama,

Rodeado de Naires, que eſperaua

Com deſuſada feſta o nobre Gama:

Ia na terra nos braços o leuaua,

E num partatil leito hũa rica cama

Lhe offereçe em que va, costume vſado,

Que nos hombros dos homẽs he leuado.


Desta arte o Malabar, deſtarte o Luſo,

Caminhão la pera onde o Rei o eſpera:

Os outros Portagueſes vão ao vſo

Que infantaria ſegne eſquadra fera:

O pouo que concorre vay confuſo

De ver a gente estranha, & bem quiſera

Perguntar: mas no tempo ja paſſado

Na torre de Babel lhe foi vedado.


O Gama, & o Catual hião fallando

Nas couſas que lhe o tempo offerecia,

Monçaide entrelles vay interpretando

As palauras que de ambos entendia:

Aſsi pela cidade caminhando,

Onde hũa rica fabrica ſe erguia

De hum ſumptuoſo templo ja chegauão,

Pelas portas do qual juntos entrauão.


Ali estam das deidades as figuras

Eſculpidas em pao, & em pedra fria,

Varias degeſtos, varias de pinturas,

A ſegundo o Demonio lhe fingia.

Vem ſe as abominaueis eſculturas,

Qual a Chimêra em membros ſe varia,

Os Chriſtãos olhos a ver Deos vſados

Em forma humana eſtam marauilhados.


Hum na cabeça cornos eſculpidos,

Qual Iupiter Amon em Lybia estaua,

Outro num corpo roſtos tinha vnidos,

Bem como o antigo Iano ſe pintaua:

Outro com muitos braços diuididos

A Briareo pareçe que imitaua:

Outro fronte Canina tem de fora,

Qual Anubis Menfitico ſe adora.


Aqui feita do barbaro gentio

A ſupersticioſa adoração,

Direitos vão ſem outro algum deſuio,

Pera onde eſtaua o Rei do pouo vão:

Engroſſando ſe vay da gente o fio,

Cos que vem ver o eſtranho Capitão,

Eſtão pelos telhados & janellas

Velhos & moços, donas & donzellas.


Ia chegão perto, & não paſſos lentos,

Dos jardins odoriferos fermoſos,

Que em ſi eſcondem os regios apouſentos,

Altos de torres não, mas ſumptuoſos,

Edificão ſe os nobres ſeus aſſentos,

Por entre os aruoredos deleitoſos,

Aſsi viuem os Reis daquella gente,

No campo & na cidade juntamente.


Pelos partais da cerca a ſutileza

Se enxerga da Dedalea facultade,

Em figuras mostrando por nobreza

Da India a mais remota antiguidade:

Affiguradas vão com tal viueza

As hiſtorias daquella antiga idade,

Que quem dellas tiuer noticia inteira,

Pela ſombra conheçe a verdadeira.


Eſtaua hum grande exercito que piſa

A terra Oriental, que o Idaſpe laua,

Rege o hum capitam de fronte liſa,

Que com frondentes Tirſos palejaua,

Por elle edificada eſtaua Niſa

Nas ribeiras do rio, que manaua,

Tão proprio, que ſe ali estiuer Semelle,

Dirâ por certo, que he ſeu filho aquelle.


Mais auante bebendo ſeca o rio,

Mui grande multidão da Aſsiria gente,

Sujeita a feminino ſenhorio,

De hũa tam bella, como incontinente:

Ali tem junto ao lado nunca frio,

Eſculpido o feroz ginete ardente,

Com quem teria o filho competencia,

Amor nefando, bruta incontinencia.


Daqui mais apartadas tremolauão

As bandeiras de Grecia glorioſas,

Terceira Monarchia, & ſojugauão,

Ate as agoas Gargeticas vndoſas:

Dum capitão mancebo ſe guiauão

De palmas rodeado valeroſas,

Que ja não de Filipo, mas ſem falta

De progenie de Iupiter ſe exalta.


Os Portugueſes vendo eſtas memorias,

Dizia o Catual ao Capitão,

Tempo cedo virà que outras victorias,

Estas que agora olhais abaterão:

Aqui ſe eſcreuerão nouas hiſtorias,

Por gentes eſtrangeiras que virão

Que os noſſos ſabios magos o alcançârão,

Quando o tempo futuro eſpeculârão.


E dizlhe mais a magica ſciencia,

Que pera ſe euitar força tamanha,

Não valerâ dos homẽs reſiſtencia,

Que contra o Ceo não val da gente manha:

Mas tambem diz que a bellica excellencia

Nas armas, & na paz, da gente eſtranha

Sera tal, que ſera no mundo ouuido

O vencedor, por gloria do vencido.


Aſsi fallando entrauão ja na ſala,

Onde aquelle potente Emperador

Nũa camilha jaz, que nam ſe igoala

De outra algũa no preço & no lauor:

No recoſtado geſto ſe aſsinala

Hum venerando & prospero ſenhor,

Hum pano de ouro cinge, & na cabeça

De precioſas gemas ſe adereça.


Bem junto delle hum velho reuerente,

Cos giolhos no chão, de quando em quando

Lhe daua a verde folha da erua ardente

Que a ſeu coſtume eſtaua ruminando:

Hum Bramene, peſſoa preminente,

Pera o Gama vem com paſſo brando,

Pera que ao grande Principe o apreſente,

Que diante lhe acena que ſe aſſente.


Sentado o Gama junto ao rico leito,

Os ſeus mais afaſtados, prompto em viſta

Estaua o Samori no trajo & geito

Da gente, nunca de antes delle viſta:

Lançando a graue voz do ſabio peito,

Que grande authoridade logo aquiſta

Na opinião do Rei, & do pouo todo

O Capitão lhe falla deſte modo.


Hum grande Rei, de la das partes, onde

O ceo volubil com perpetua roda

Da terra a luz ſolar coa terra eſconde,

Tingindo a que deixou de eſcura noda,

Ouuindo do rumor que la responde

O eco, como em ti da India toda

O principado eſtâ, & a mageſtade,

Vinculo quer contigo de amizade.


E por longos rodeos a ti manda,

Por te fazer ſaber que tudo aquillo

Que ſobre o mar, que ſobre as terras anda

De riquezas, de lâ do Tejo ao Nilo:

E desda fria plaga de Gelanda,

Ate bem donde o Sol nam muda o eſtilo

Nos dias, ſobre a gente de Ethiopia,

Tudo tem no ſeu Reino em grande copia.


E ſe queres com pactos, & lianças

De paz, & de amizade ſacra, & nua,

Comerçio conſentir das abundanças

Das fazendas da terra ſua, & tua,

Porque creção as rendas, & abaſtanças,

Por quem a gente mais trabalha & ſua,

De voſſos Reinos, ſera certamente

De ti proueito, & delle gloria ingente.


E ſendo aſsi que o nô deſta amizade,

Entre vos firmemente permaneça,

Estara prompto a toda aduerſidade,

Que por guerra a teu Reino ſe offereça:

Com gente, armas, & naos de qualidade

Que por yrmão te tenha, & te conheça,

E da vontade em ti ſobriſto poſta

Me des a my certiſsima reposta.


Tal embaxada daua o Capitão,

A quem o Rei gentio reſpondia,

Que em ver embaxadores de nação

Tam remota, gram gloria recebia:

Mas neſte caſo a vltima tençam

Com os de ſeu conſelho tomaria,

Informando ſe certo de quem era

O Rei, & a gente, & terra que diſſera.


E que em tanto podia do trabalho

Paſſado yr repouſar, & em tempo breue

Daria a ſeu deſpacho hum juſto talho,

Com que a ſeu Rei repoſta alegre leue:

Ia niſto punha a noite o vſado atalho

Aas humanas canſeiras, porque ceue

De doçe ſono os membros trabalhados,

Os olhos ocupando ao ocio dados.


Agaſalhados foram juntamente,

O Gama, & Portugueſes no apouſento

Do nobre Regedor da Indica gente,

Com festas & geral contentamento:

O Catual no cargo diligente

De ſeu Rei, tinha ja por regimento

Saber da gente eſtranha donde vinha

Que costumes, que lei, que terra tinha.


Tanto que os igneos carros do fermoſo

Mancebo Delio vio, que a luz renoua,

Manda chamar Monçaide, deſejoſo

De poder ſe informar da gente noua:

Ia lhe pergunta prompto & curioſo,

Se tem noticia inteira, & certa proua,

Dos eſtranhos quem ſam, que ouuido tinha

Que he gente de ſua patria muy vizinha.


Que particularmente ali lhe deſſe

Informação muy larga, pois fazia

Niſſo ſeruiço ao Rei, porque ſoubeſſe

O que neste negocio ſe faria:

Mançaide torna, poſto que eu quiſeſſe

Dizerte disto mais nam ſaberia,

Somente ſey que he gente la de Hespanha

Onde o meu ninho, & o Sol no mar ſe banha.


Tem a ley dum Propheta, que gerado

Foi ſem fazer na carne detrimento

Da mãy, tal que por bafo estâ aprouado

Do Deos, que tem do mundo o regimento:

O que entre meus antigos he julgado

Delles, he que o valor ſanguinolento

Das armas, no ſeu braço reſplandeçe,

O que em noſſos paſſados ſe pareçe.


Porque elles com virtude ſobre humana,

Os deitarão dos campos abundoſos

Do rico Tejo, & freſca Goadiana,

Com feitos memoraueis, & famoſos:

E não contentes inda, & na Affricana

Parte, cortando os mares proceloſos

Nos não querem deixar viuer ſeguros,

Tomando nos cidades, & altos muros.


Nam menos tem moſtrado esforço, & manha,

Em quaesquer outras guerras que acõteção,

Ou das gentes beligeras da Eſpanha,

Ou la dalgũs que do Pirene deção.

Aſsi que nunca em fim com lança eſtranha

Se tem, que por vencidos ſe conheção,

Nem ſe ſabe inda não, te afirmo & aſſello

Pera estes Anibais nenhum Marcello.


E ſeſta informação nam for inteira

Tanto quanto conuem, delles pretende

Informarte, que he gente verdadeira,

A quem mais falſidade enoja & offende:

Vay verlhe a frota, as armas, & a maneira

Do fundido metal, que tudo rende,

E folgaras de veres a policia

Portugueſa na paz, & na milicia.


Ia com deſejos o Idolatra ardia,

De ver iſto, que o Mouro lhe contaua,

Manda eſquipar bateis, que yr ver queria

Os lenhos em que o Gama nauegaua.

Ambos partem da praia, a quem ſeguia

A Naira geraçam, que o mar coalhaua,

Aa Capitaina ſobem forte & bella,

Onde Paulo os recebe a bordo della.


Purpureos ſam os toldos, & as bandeiras

Do rico fio ſam, que o bicho gera,

Nellas eſtam pintadas as guerreiras

Obras, que o forte braço ja fizera:

Batalhas tem campais auentureiras,

Deſafios crueis, pintura fera,

Que tanto que ao Gentio ſe apreſenta,

A tento nella os ollos apacenta.


Pelo que ve pergunta: mas o Gama

Lhe pedia primeiro que ſe aſſente,

E que aquelle deleite que tanto ama

A ceita Epicurea, eſperimente:

Dos eſpumantes vaſos ſe derrama

O licor, que Noe mostrâra aa gente:

Mas comer o Gentio nam pretende,

Que a ceita que ſeguia lho defende.


A trombeta que em paz no penſamento,

Imagem faz de guerra, rompe os ares,

Co ſogo o diabolico instrumento,

Se faz ouuir no fundo la dos mares:

Tudo o Gentio nota: mas o intento

Moſtraua ſempre ternos ſingulares

Feitos dos homẽs, que em retrato breue

A muda poeſia ali deſcreue.


Alçaſe em pê, co elle os Gamas junto

Coelho de outra parte, & o Mauritano

Os olhos poem no bellico trafunto

De hum velho branco, aſpeito venerando,

Cujo nome nam pode ſer defuncto

Em quanto ouuer no mundo trato humano,

No trajo a Grega vſança eſtâ perfeita,

Hum ramo por inſignia na dereita.


Hum ramo na mão tinha: mas o cego

Eu que cometo inſano, & temerario,

Sem vos Nimphas do Tejo, & do Mondego,

Por caminho tam arduo, longo, & vario:

Voſſo fauor inuoco, que nauego

Por alto mar, com vento tam contrario,

Que ſe nam me ajudais, ei grande medo,

Que o meu fraco batel ſe alague cedo.


Olhay que ha tanto tempo, que cantando

O voſſo Tejo, & os voſſos Luſitanos,

A fortuna me traz peregrinando,

Nouos trabalhos vendo, & nouos danos:

Agora o mar, agora eſprimentando

Os perigos Mauorcios inhumanos,

Qual Canace que â morte ſe condena,

Nũ mão ſempre a eſpada, & noutra a pena:


Agora com pobreza auorrecida,

Por hoſpicios alheios degradado,

Agora da eſperança ja adquirida,

De nouo mais que nunca derribado:

Agora aas costas eſcapando a vida,

Que dum fio pendia tam delgado,

Que não menos milagre foi ſaluarſe,

Que pera o Rei Iudaico acrecentarſe.


E ainda Nimphas minhas não baſtaua,

Que tamanhas miſerias me cercaſſem:

Senão que aquelles que eu cantando andaua,

Tal premio de meus verſos me tornaſſem

A troco dos deſcanſos que eſparaua,

Das capellas de louro que me honraſſem,

Trabalhos nunca vſados me inuentârão,

Com que em tam duro eſtado me deitârão.


Vede Nimphas que engenhos de ſenhores

O voſſo Tejo cria valeroſos,

Que aſsi ſabem prezas com tais fauores

A quem os faz cantando glorioſos:

Que exemplos a futuros eſcriptores,

Pera eſpertar engenhos curioſos,

Pera porem as couſas em memoria,

Que merecerem ter eterna gloria.


Pois logo em tantos males he forçado,

Que ſo voſſo fauor me não falleça,

Principalmente aqui, que ſou chegado

Onde feitos diuerſos engrandeça:

Daimo vos ſos, que eu tenho ja jurado

Que não no empregue em quem o não mereça

Nem por liſonja louue algum ſubido,

Sob pena de não ſer agradecido.


Nem creais Nimphas nam que fama deſſe

A quem ao bem comum, & do ſeu Rei

Antepoſer ſeu proprio intereſſe:

Imigo da diuina & humana ley,

Nenhum ambicioſo, que quiſeſſe

Subir a grandes cargos, cantarey,

So por poder com torpes exercicios

Vſar mais largamente de ſeus vicios.


Nenhum que vſe de ſeu poder bastante

Pera ſeruir a ſeu deſejo feio,

E que por comprazer ao vulgo errante

Se muda em mais figuras que Proteio,

Nem Camenas tambem cuideis que cante

Quem com habito honeſto & graue veio,

Por contentar o Rei no officio nouo,

A deſpir & roubar o pobre pouo.


Nem quem acha que he justo & que he dereito

Guardaſe a ley do Rei ſeueramente,

E não acha que he juſto & bom reſpeito,

Que ſe pague o ſuor da ſeruil gente.

Nem quem ſempre com pouco experto peito

Razões aprende, & cuida que he prudente,

Pera taxar com mão rapace & eſcaſſa,

Os trabalhos alheios, que nam paſſa.


Aquelles ſos direy que auenturârão

Por ſeu Deos, por ſeu Rei, a amada vida

Onde perdendoa, em fama a dilatârão,

Tambem de ſuas obras merecida

Apolo, & as Muſas que me acompanharão,

Me dobraram a furia concedida

Em quanto eu tomo alento deſcanſado,

Por tornar ao trabalho mais folgado.

#colonialism #cultural encounter #exploration #imperial ambition #luis vaz de camoes

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