Canto IX

by Luís Vaz de Camões · 1572 (edição princeps)
Published 01/07/1572

Tiuerão longamente na cidade

Sem vender ſe a fazenda os dous feitores,

Que os infieis por manha, & falſidade

Fazem, que nam lha comprem mercadores,

Que todo ſeu propoſito, & vontade

Era, deter ali os deſcubridores

Da India, tanto tempo que vieſſem

De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem.


La no ſeio Eritreo, onde fundada

Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo,

Do nome da irmã ſua aſsi chamada,

Que deſpois em Suez ſe conuerteo,

Não longe, o porto jaz da nomeada

Cidade Meca, que ſe engrandeceo

Com a ſuperstiçam falſa, & profana,

Da relegioſa agoa Maumetana.


Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato

De todo o roxo mar mais florecia,

De que tinha proueito grande, & grato

O Soldão que eſſe Reino poſſuia:

Daqui aos Malabares, por contrato

Dos infieis, fermoſa companhia

De grandes naos, pelo Indico Oceano,

Eſpeciaria vem buſcar cada anno.


Por eſtas naos os Mouros eſperauão,

Que como foſſem grandes & poſſantes

Aquellas, que o comerçio lhe tomauão,

Com flamas abraſaſſem crepitantes:

Neſte ſocorro tanto confiauão,

Que ja nam querem mais dos nauegantes,

Se nam que tanto tempo ali tardaſſem,

Que da famoſa Meca as naos chegaſſem.


Mas o Gouernador dos ceos, & gentes,

Que pera quanto tem determinado,

De longe os meios dâ conuenientes,

Por onde vem a effeito o fim fadado,

Influio piadoſos accidentes

De affeiçam em Monçaide, que guardado

Estaua pera dar ao Gama auiſo,

E merecer por iſſo o Paraiſo.


Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão,

Por ſer Mouro como elles, antes era

Participante em quanto machinauão,

A tençam lhe deſcobre torpe, & fera:

Muitas vezes as naos que longe eſtauão

Viſita, & com piedade conſidera

O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena,

Pela maligna gente Sarracena.


Informa o cauto Gama das armadas,

Que de Arabica Meca vem cadano,

Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas,

Pera ſer inſtrumento deſte dano:

Diz lhe que vem de gente carregadas,

E dos trouões horrendos de Vulcano,

E que pode ſer dellas opremido,

Segundo eſtaua mal apercebido.


O Gama que tambem conſideraua

O tempo, que pera a partida o chama,

E que deſpacho ja não eſparaua

Milhor do Rei, que os Maumetanos ama:

Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua

Que ſe tornem aas naos: & porque a fama

Deſta ſubita vinda os não impida,

Lhe manda que a fizeſſem eſcondida.


Porem não tardou muito, que voando

Hum rumor nam ſoaſſe com verdade,

Que forão preſos os feitores, quando

Foram ſentidos virſe da cidade:

Eſta fama as orelhas penetrando

Do ſabio capitão, com breuidade

Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão,

A vender pedraria que trouxerão.


Eram eſtes antigos mercadores

Ricos em Calecu, & conhecidos

Da falta delles, logo entre os milhores

Sentido foi, que eſtão no mar retidos:

Mas ja nas naos os bõs trabalhadores,

Voluem o cabrestante, & repartidos

Pelo trabalho, hũs puxão pela amarra,

Outros quebrão co peito duro a barra.


Outros pendem da verga, & ja deſatão

A vella, que com grita ſe ſoltaua,

Quando com maior grita ao Rei relatão

A preſſa, com que a armada ſe leuaua:

As molheres & filhos, que ſe matão

Daquelles que vão preſos, onde eſtaua

O Samorim, ſe aqueixão que perdidos

Hũs tem os pais, as outras os maridos.


Manda logo os feitores Luſitanos

Com toda ſua fazenda liuremente,

A peſar dos imigos Maumetanos,

Porque lhe torne a ſua preſa gente:

Deſculpas manda o Rei de ſeus enganos,

Recebe o Capitão de melhormente

Os preſos, que as deſculpas, & tornando

Algũs negros, ſe parte as vellas dando.


Parteſe coſta abaxo, porque entende

Que em vão co Rei gentio trabalhaua,

Em querer delle paz, a qual pretende

Por firmar o comercio que trataua:

Mas como aquella terra que ſe estende

Pela Aurora, ſabida ja deixaua,

Com eſtas nouas torna aa patria cara,

Certos ſinais leuando do que achara.


Leua algũs Malabares, que tomou

Per força, dos que o Samorim mandâra,

Quando os preſos feitores lhe tornou:

Leua pimenta ardente que compràra:

A ſeca flor de Banda não ficou,

A Noz, & o negro crauo, que faz clara

A noua ilha Maluco, coa canella,

Com que Ceilão he rica illustre & bella.


Isto tudo lhe ouuera a deligencia

De Monçaide fiel, que tambem leua,

Que inſpirado de Angelica influencia,

Quer no liuro de Chriſto que ſe eſcreua,

O ditoſo.Affricano, que a clemencia

Diuina aſsi tirou deſcura treua,

E tam longe da patria achou maneira,

Pera ſubir aa patria verdadeira.


Apartadas aſsi da ardente costa,

As venturoſas naos, leuando a proa

Pera onde a natureza tinha poſta

A Meta Austrina da eſparança boa,

Leuando alegres nouas & repoſta,

Da parte Oriental pera Lisboa,

Outra vez cometendo os duros medos

Do mar incerto, temidos & ledos.


O prazer de chegar aa patria cara,

A ſeus penates caros & parentes,

Pera contar a peregrina, & rara

Nauegaçam, os varios çeos, & gentes,

Vir a lograr o premio, que ganhàra

Por tão longos trabalhos, & accidentes,

Cada hum, tem por goſto tam perfeito,

Que o coração para elle he vaſo eſtreito.


Porem a Deoſa Cipria, que ordenada

Era pera fauor dos Luſitanos

Do Padre eterno, & por bom genio dada

Que ſempre os guia ja de longos annos.

A gloria por trabalhos alcançada,

Satisfação de bem ſofridos danos,

Lhe andaua ja ordenando, & pretendia

Darlhe nos mares tristes alegria.


Deſpois de ter hum pouco reuoluido

Na mente, o largo mar que nauegârão,

Os trabalhos, que pelo Deos naſcido,

Nas Amphioneas Thebas, ſe cauſarão,

Ia trazia de longe no ſentido,

Pera premio de quanto mal paſſarão,

Buſcarlhe algum deleite, algum deſcanſo

No Reino de criſtal liquida, & manſo.


Algum repouſo em fim, com que podeſſe

Refucilar a laſſa humanidade

Dos nauegantes ſeus, como intereſſe

Do trabalho, que incurta a breue idade:

Parecelhe razão que conta deſſe

A ſeu filho, por cuja poteſtade

Os Deoſes faz decer ao vil terreno,

E os humanos ſubir ao ceo ſereno.


Iſto bem reuoluido, determina

De terlhe aparelhada la no meio

Das agoas, algũa inſula diuina,

Ornada deſmaltado & verde arreio:

Que muitas tem no reino, que confina

Da primeira co terreno ſeio,

Afora as que paſſue ſoberanas,

Pera dentro das portas Herculanas.


Ali quer que as aquaticas donzellas,

Eſperem os fortiſsimos barões,

Todas as que tem titolo de bellas,

Gloria dos olhos, dor dos corações,

Com danças, & coreas, porque nellas

Influirâ ſecretas affeições,

Pera com mais vontade trabalharem

De contentar a quem ſe affeiçoarem.


Tal manha buſcou ja, pera que aquelle

Que de Achiſes pario, bem recebido

Foſſe no campo que a bouina pelle

Tomou de eſpaço, por ſutil partido:

Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle

Tem todo ſeu poder, fero Cupido,

Que aſsi como naquella empreſa antiga

A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga.


No carro ajunta as aues, que na vida

Vão da morte as exequias celebrando,

E aquellas em que ja foi conuertida

Peristera, as boninas apanhando:

Em derredor da Deoſa ja partida,

No ar laſciuos beijos ſe vão dando,

Ella por onde paſſa o ar, & o vento

Sereno faz, com brando mouimento.


Ia ſobre os Idalios montes pende,

Onde o filho frecheiro eſtaua então,

Ajuntando outros muitos, que pretende

Fazer hũa famoſa expedição

Contra o mundo reuelde, porque emende

Erros grandes, que ha dias nelle eſtão,

Amando couſas que nos ſorão dadas,

Nam pera ſer amadas, mas vſadas.


Via Acteon na caça, tam auſtero,

De cego na alegria bruta, inſana,

Que por ſeguir hum feo animal fero,

Foge da gente, & bella forma humana:

E por caſtigo quer doçe, & ſeuero,

Maſtra lhe a fermoſura de Diana,

E guarde ſe nam ſeja inda comido

Deſſes cães que agora ama, & conſumido.


E vè do mundo todo os principais,

Que nenhum no bem pubrico imagina,

Vê nelles, que não tem amor a mais

Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina

Vê que eſſes que frequentão os reais

Paços, por verdadeira & ſaã doctrina

Vendem adulação, que mal conſente

Mandarſe o nouo trigo florecente.


Vê que aquelles que deuem aa pobreza

Amor diuino, & ao pouo charidade,

Amão ſomente mandos, & riqueza,

Simulãdo juſtiça, & integridade:

Da fea tyrania & de aſpereza

Fazem direito, & vaã ſeueridade:

Leis em fauor do Rei ſe estabelecem,

As em fauor do pouo ſo perecem.


Vê em fim que ninguem ama o que deue,

Se não o que ſomente mal deſeja,

Não quer que tanto tempo ſe releue,

O castigo que duro, & justo ſeja:

Seus miniſtros ajunta, porque leue

Exercitos conformes aa peleja,

Que eſpera ter coa mal regida gente,

Que lhe não for agora obediente.


Muitos deſtes mininos voadores,

Eſtão em varias obras trabalhando,

Hũs amolando ferros paſſadores,

Outros aſteas de ſetas delgaçando,

Trabalhando cantando estão de amores,

Varios caſos em verſo modulando,

Melodia ſonora, & concertada,

Suaue a letra, angelica a ſoada.


Nas fragras immortais, onde forjauão,

Pera as ſetas as pontas penetrantes,

Por lenha, corações ardendo eſtauão,

Viuas entranhas inda palpitantes:

As agoas onde os ferros temperauão,

Lagrimas ſam de miſeros amantes,

A viua flama, o nunca morto lume,

Deſejo he ſo que queima, & não conſume.


Algũs exercitando a mão andauão,

Nos duros corações da plebe ruda,

Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão,

Dos que feridos vão, da ſeta aguda,

Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão

As chagas recebidas, cuja ajuda

Não ſomente dâ vida aos mal feridos:

Mas poem em vida os inda não naſcidos.


Fermoſas ſam algũas, & outras feas,

Segundo a qualidade for das chagas,

Que o veneno eſpalhado pelas veas,

Curão no aas vezes aſperas triagas

Algũs ficão ligados em cadeas,

Por palauras ſutis de ſabias Magas,

Iſto acontece aas vezes quando as ſetas

Acertão de leuar eruas ſecretas.


Deſtes tiros aſsi deſordenados,

Que estes moços mal deſtros vão tirando,

Naſcem amores mil desconcertados,

Entre o pouo ferido miſerando,

E tambem nos heroes de altos eſtados,

Exemplos mil ſe vem de amor nefando,

Qual o das moças, Bibli, & Cynirea

Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea.


E vos ô poderoſo por paſtoras

Muytas vezes ferido o peyto vedes,

E por bayxos, & rudos vos ſenhoras

Tambem vos tomão nas Vulcanias redes,

Hũs eſperando andais nocturnas horas,

Outros ſubis telhados & paredes,

Mas eu creyo que deſte amor indino,

He mais culpa a da mãy, que a da minino.


Mas ja no verde prado o carro leue,

Punhão os brancos Ciſnes manſamente,

E Dione, que as roſas entre a neue

No rosto traz, decia diligente:

O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue,

A recebella vem, ledo, & contente,

Vem todos os cupidos ſeruidores,

Beijar a mão aa Deoſa dos amores.


Ella porque não gaſte o tempo em vão,

Nos braços tendo o filho, confiada

Lhe diz, amado filho, em cuja mão

Toda minha potencia eſtà fundada:

Filho em quem minhas forças ſempre eſtão,

Tu que as armas Tifeas tẽs em nada,

A ſocorrer me a tua poteſtade,

Me traz eſpecial neceſsidade.


Bem ves as Luſitanicas fadigas,

Que eu ja de muito longe fauoreço,

Porque das Parcas ſey minhas amigas,

Que me ande venerar & ter em preço,

E porque tanto imitão as antigas

Obras de meus Romanos, me offereço

A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo,

A quanto ſe estender o poder noſſo.


E porque das inſidias do odioſo

Baco foram na India moleſtados,

E das injurias ſos do mar vndoſo,

Poderão mais ſer mortos, que canſados:

No mesmo mar, que ſempre temeroſo

Lhe foi, quero que ſejão repouſados,

Tomando aquelle premio, & doçe gloria

Do trabalho que faz clara a memoria.


E pera iſſo queria que feridas

As filhas de Nereo, no ponto fundo,

Da mor dos Luſitanos encendidas,

Que vem de deſcobrir o nouo mundo,

Todas nũa ilha juntas & ſubidas,

Ilha que nas entranhas do profundo

Oceano, terei aparelhada,

De dões de Flora, & Zefiro adornada.


Ali com mil refreſcos & manjares,

Com vinhos odoriferos, & roſas,

Em criſtalinos paços ſingulares,

Fermoſos leitos, & ellas mais fermoſas:

Em fim com mil deleites não vulgares,

Os eſperem as Nimphas amoroſas,

Damor feridas, pera lhe entregarem

Quanto dellas os olhos cobiçarem.


Quero que aja no reino Neptunino

Onde eu naſci, progenie forte & bella,

E tome exemplo o mundo vil, malino,

Que contra tua potencia ſe reuela,

Porque entendão que muro Adamantino,

Nem triste hypocreſia val contra ella:

Mal auerâ na terra quem ſe guarde,

Se teu fogo imortal nas agoas arde.


Aſsi Venus propos, & o filho inico

Pera lhe obedecer ja ſe apercebe,

Manda trazer o arco eburneo rico,

Onde as ſetas de ponta de ouro embebe:

Com geſto ledo a Cipria, & impudico,

Dentro no carro o filho ſeu recebe,

Ha redea larga aas aues, cujo canto

Ha Phaetontea morte chorou tanto.


Mas diz Cupido, que era neceſſaria

Hũa famoſa, & celebre terceyra,

Que poſto que mil vezes lhe he contraria,

Outras muytas ha tem por companheyra:

A Deoſa Gigantea temeraria,

Iactante, mintiroſa, & verdadeyra,

Que com cem olhos ve, & por onde voa

O que vè com mil bocas apregoa.


Vão a buſcar, & mandam a diante,

Que celebrando va com tuba clara,

Os louuores da gente nauegante,

Mais do que nunca os doutrem celebrara

Ia murmurando a fama penetrante

Pelas fundas cauernas ſe eſpalhàra,

Fala verdade, a vida por verdade,

Que junto a Deoſa traz Credulidade.


O louuor grande, o rumor excellente

No coração dos Deoſes, que indinados

Forão por Baco contra a illuſtre gente,

Mudando os fez hum pouco afeyçoados:

O peyto feminil, que leuemente

Muda quaeſquer propafitos tomados,

Ia julga por mao zelo, & por crueza

Deſejar mal a tanta fortaleza.


Deſpede niſto o fero moço as ſetas

Hũa apos outra, geme o mar cos tiros,

Dereitas pelas ondas inquietas,

Algũas vão, & algũas fazem giros:

Caem as Nimphas, lançam das ſecretas

Entranhas ardentiſsimos ſoſpiros,

Cae qualquer, ſem ver o vulto que ama,

Que tanto como a vista pode a fama.


Os cornos ajuntou da eburnea Lũa,

Com força o moço indomito exceſsiua,

Que Thetis quer ferir mais que nenhũa,

Porque mais que nenhũa lhe era eſquiua:

Ia não fica na aljaua ſeta algũa,

Nem nos equoreos campos Nimpha viua,

E ſe feridas inda eſtão viuendo,

Sera pera ſentir que vão morrendo.


Day lugar altas & ceruleas ondas,

Que vedes Venus traz a medicina,

Moſtrando as brancas vellas, & redondas,

Que vem por cima da agoa Neptunina:

Pera que tu reciproco reſpondas

Ardente Amor aa flama feminina,

He forçado que a pudicicia honesta

Faça quanto lhe Venus amoeſta.


Ia todo o bello coro ſe aparelha

Das Nereidas, & junto caminhaua

Em coreas gentis, vſança velha,

Pera a ilha, a que Venus as guiaua:

Ali a fermoſa Deoſa lhe aconſelha

O que ella fez mil vezes, quando amaua,

Ellas que vão do doçe amor vencidas,

Eſtão a ſeu conſelho offerecidas.


Cortando vão as naos a larga via

Do mar ingente, pera a patria amada,

Deſejando prouerſe de agoa fria,

Pera a grande viajem prolongada:

Quando juntas com ſubita alegria,

Ouuerão vista da ilha namorada,

Rompendo pelo çeo a mãi fermoſa

De Menonio, ſuaue & deleitoſa.


De longe a Ilha virão freſca, & bella,

Que Venus pelas ondas lha leuaua

(Bem como o vento leua branca vella)

Pera onde a forte armada ſe enxergaua,

Que porque não paſſaſſem, ſem que nella

Tomaſſem porto, como deſejaua,

Pera onde as naos nauegão a mouia

A Accidalia, que tudo em fim podia.


Mas firme a fez & imobil, como vio

Que era dos Nautas viſta, & demandada,

Qual ficou Delos, tanto que pario

Latona Phebo, & a Deoſa aa caça vſada

Pera la logo a proa o mar abrio,

Onde a coſta fazia hũa enſeada

Curua, & quieta, cuja branca area

Pintou de ruiuas conchas Cyterea.


Tres fermoſos outeiros ſe moſtrauão,

Erguidos com ſoberba gracioſa,

Que de gramineo eſmalte ſe adornauão,

Na fermoſa ilha alegre, & deleitoſa:

Claras fontes & limpidas manauão

Do cume, que a verdura tem viçoſa,

Por entre pedras aluas ſe diriua,

A ſonoroſa Limpha fugitiua.


Num valle ameno, que os outeiros fende,

Vinhão as claras agoas ajuntarſe,

Onde hũa meſa fazem, que ſe estende

Tam bella, quanto pode imaginarſe:

Aruoredo gentil ſobre ella pende,

Como que prompto estâ pera afeitarſe,

Vendoſe no cristal reſplandecente,

Que em ſi o eſtâ pintando propriamente:


Mil aruores eſtão ao çeo ſubindo,

Com pomos odoriferos & bellos,

A Laranjeira tem no fruito lindo

A cor, que tinha Daphne nos cabellos.

Encoſtaſe no chão, que eſtà caindo

A Cidreira cos peſos amarellos,

Os fermoſos limoẽs ali cheirando

Eſtam virgineas tetas imitando.


As aruores agreſtes, que os outeiros

Tem com frondente coma emnobrecidos

Alemos ſam de Alcides, & os Loureiros

Do louro Deos amados, & queridos:

Mirtos de Cyterea, cos Pinheiros

De Cybele por outro amor vencidos,

Estâ apontando o agudo Cipariſo

Pera onde he poſto o Etereo paraiſo.


Os dões que dâ Pomona, ali natura

Produze diferentes nos ſabores,

Sem ter neceſsidade de cultura,

Que ſem ella ſe dão muito milhores.

As Cereijas porpureas na pintura,

As Amoras, que o nome tem de amores,

O pomo, que da patria Perſia veio,

Milhor tornado no terreno alheio.


Abre a Romã, mostrando a rubicunda

Cor, com que tu Rubi teu preço perdes:

Entre os braços do Vlmeiro eſtâ a jocunda

Vide, cũs cachos roxos, & outros verdes:

E vos ſe na voſſa aruore fecunda

Peras pyramidais viuer quiſerdes,

Entregaiuos ao dano, que cos bicos,

Em vos fazem os paſſaros inicos.


Pois a tapeçaria bella & fina,

Com que ſe cobre a ruſtico terreno,

Faz ſer a de Achemenia menos dina:

Mas o ſombrio valle mais ameno:

Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina,

Sobollo tanque lucido & ſereno,

Floreçe o filho & neto de Cyniras,

Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras.


Pera julgar dificil couſa fora,

No çeo vendo, & na terra as meſmas cores,

Se daua aas flores cor a bella Aurora,

Ou ſe lha dam a ella as bellas flores:

Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora

As violas da cor dos amadores,

O Lirio roxo, a freſca Roſa bella,

Qual reluze nas faces da donzella.


A candida Cecêm das Matutinas

Lagrimas ruciada, & a Manjarona,

Venſe as letras nas flores Hyacintinas,

Vem queridas do filho de Latona:

Bem ſe enxerga nos pomos & boninas,

Que competia Cloris com Pomona:

Pois ſe as aues no ar cantando voão,

Alegres animais o chão pouoão.


A longo da agoa o niueo Ciſne canta,

Responde lhe do ramo Philomela,

Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta

Acteon nagoa criſtalina & bella:

Aqui a fugace Lebre ſe leuanta

Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella,

Ali no bico traz ao caro ninho,

O mantimento ô leue paſſarinho.


Neſta freſcura tal deſembarcauão

Ia das naos os ſegundos Argonautas,

Onde pela floresta ſe deixauão

Andar as bellas Deoſas como incautas,

Algũas doçes Cytaras tocauão,

Algũas arpas, & ſonoras frautas,

Outras cos arcos de ouro ſe fingião

Seguir os animais, que nam ſeguião.


Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta,

Que andaſſem pelos campos eſpalhadas,

Que vista dos barões a preſa incerta,

Se fizeſſem primeyro deſejadas

Algũas, que na forma deſcuberta

Do bello corpo eſtauão confiadas,

Poſta a artificioſa fermoſura,

nuas lauarſe deyxão na agoa pura.


Mas os fortes mancebos, que na praya

Punhão os pes de terra cubiçoſos,

Que não ha nenhum delles, que não ſaya

De acharem caça agreſte deſejoſos:

Não cuydão que ſem laço, ou redes caya

Caça naquelles montes deleytoſos

Tão ſuaue, domeſtica, & benina,

Qual ferida lha tinha ja Ericina.


Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas

Pera ferir os Ceruos ſe fiauão,

Pelos ſombrios matos, & floreſtas

Determinadamente ſe lançauão:

Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas

Defendem a verdura, paſſeauão

Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda

Por aluas pedras corre aa praya leda.


Começão de enxergar ſubitamente

Por entre verdes ramos varias cores,

Cores de quem a viſta julga, & ſente,

Que não erão das roſas, ou das flores,

Mas da lam fina, & ſeda diferente

Que mais incîta a força dos amores,

De que ſe vestem as humanas roſas,

Fazendoſe por arte mais fermoſas.


Da Veloſo eſpantado hum grande grito,

Senhores caça eſtranha diſſe he eſta,

Se inda durão o Gentio antigo rito,

A Deoſas he ſagrada esta floresta:

Mais deſcobrimos do que humano eſprito

Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta

Que ſam grandes as couſas, & excellentes

Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes.


Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos,

Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras,

Isto dito velloces mais que Gamos,

Selançam a correr pelas ribeiras:

Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos,

Mas mais induſtrioſas que ligeiras,

Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando,

Se deixão yr dos Galgos alcançando.


De hũa os cabellos de ouro o vento leua

Correndo, & da outra as fraldas delicadas,

Acendeſe o deſejo que ſe ceua

Nas aluas carnes ſubito moſtradas,

Hũa de industria cae, & ja releua

Com moſtras mais maſias, que indinadas,

Que ſobre ella empecendo tambem caia

Quem a ſeguio pela arenoſa praia.


Outros por outra parte vão topar,

Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão,

Ellas começam ſubito a gritar,

Como que aſſalto tal nam eſperauão,

Hũas fingindo menos eſtimar

A vergonha, que a força, ſe lançauão

Nuas por entre o mato, aos olhos dando

O que aas mãos cobiçoſas vão negando.


Outra como acudindo mais de preſſa,

Aa vergonha da Deoſa caçadora,

Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa

Por tomar os veſtidos, que tem fora:

Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa

Veſtido aſsi & calçado (que co a mora

Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde)

A matar na agoa o fogo que nelle arde.


Qual tão de caçador ſagaz, & ardido,

Vſado a tomar na agoa a aue ferida,

Vendo roſto o ferreo cano erguido,

Pera a Garcenha, ou Pata conhecida,

Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido

Salta nagoa, & da preſa nam duuîda,

Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo

Remete ha que nam era yrmaã de Phebo.


Lionardo ſoldado bem deſpoſto,

Manhoſo, caualleiro, & namorado,

A quem amor não dera hum ſo deſgoſto,

Mas ſempre fora delle mal tratado:

E tinha ja por firme proſuposto

Ser com amores mal afortunado,

Porem não que perdeſſe a eſperança,

De inda poder ſeu fado ter mudança.


Quis aqui ſua ventura, que corria

Apos Efire, exemplo de belleza,

Que mais caro que as outras dar queria,

O que deu para darſe a natureza,

Ia canſado correndo lhe dizia.

O fermoſura indigna de aſpereza,

Pois desta vida te concedo a palma,

Eſpera hum corpo de quem leuas a alma.


Todas de correr canſam, Nimpha pura,

Rendendo ſe aa vontade do inimigo,

Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura?

Quem te diſſe que eu era o que te ſigo?

Se to tem dito ja aquella ventura,

Que em toda a parte ſempre anda comigo,

O nam na creas, porque eu quando a cria,

Mil vezes cada hora me mentia.


Nam canſes, que me canſas: & ſe queres

Fujirme, porque nam poſſa tocarte,

Minha ventura he tal, que inda que eſperes

Ella farâ que nam poſſa alcançarte:

Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres,

Que ſutil modo buſca de eſcaparte,

E notarâs no fim deſte ſucceſſo,

Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.


O não me fujas, aſsi nunca o breue

Tempo fuja de tua fermoſura,

Que ſo com refrear o paſſo leue,

Vencerâs da fortuna a força dura:

Que Emperador, que exercito ſe atreue.

A quebrantar a furia da ventura,

Que em quanto deſejey me vai ſeguindo,

O que tu ſo faras nam me fugindo?


Põeste da parte da desdita minha?

Fraqueza he dar ajuda ao mais potente:

Leuas me hum coração, que liure tinha?

Solta mo, & corroras mais leuemente.

Não te carrega eſſa alma tam mezquinha,

Que neſſes fios de ouro reluzente

Atada leuas? ou deſpois de preſa

Lhe mudaſte a ventura, & menos peſa?


Neſta eſperança ſo te vou ſeguindo,

Que ou tu nam ſofrerâs o peſo della,

Ou na virtude de teu gesto lindo,

Lhe mudarâs a triste & dura eſtrella.

E ſe ſe lhe mudar, nam vas fugindo,

Que Amor te ferirà, gentil donzella,

E tu me eſperarâs, ſe Amor te fere,

E ſe me eſperas, não ha mais que eſpere.


Ia nam fugia a bella Nimpha, tanto

Por ſe dar cara ao triste que a ſeguia,

Como por yr ouuindo o doçe canto,

As namoradas magoas que dizia:

Voluendo o roſto ja ſereno & ſancto,

Toda banhada em riſo, & alegria,

Cair ſe deixa aos pês do vencedor,

Que todo ſe desfaz em puro amor.


O que famintos beijos na floreſta,

E que mimoſo choro que ſoaua,

Que afagos tam ſuaues, que yra honeſta

Que em riſinhos alegres ſe tornaua:

O que mais paſſam na menhã, & na ſesta

Que Venus com prazeres inflamaua,

Milhor he eſprimentalo que julgalo,

Mas julgue o quem nam pode eſprimentalo.


Deſta arte em fim conformes ja as fermoſas

Nimphas, cos ſeus amados nauegantes,

Os ornão de capellas deleitoſas,

De louro, & de ouro, & flores abundantes:

As mãos aluas lhe dauão como eſpoſas

Com palauras formais, & eſtipulantes,

Se prometem eterna companhia

Em vida & morte, de honra & alegria.


Hũa dellas maior, a quem ſe humilha

Todo o coro das Nimphas, & obedece,

Que dizem ſer de Celo & Vesta filha,

O que no geſto bello ſe parece,

Enchendo a terra, & o mar de marauilha,

O Capitão illustre que o mereçe,

Recebe ali com pompa honeſta, & rêgia,

Moſtrando ſe ſenhora grande, & egregia.


Que deſpois de lhe ter dito quem era,

Cum alto exordio de alta graça ornado,

Dando lhe a entender, que ali viera

Por alta influiçam do imobil fado,

Pera lhe deſcobrir da vnida eſphera,

Da terra immenſa, & mar não nauegado

Os ſegredos, por alta prophecia,

O que eſta ſua naçam ſo merecia:


Tomando o pela mão a leua, & guia

Pera o cume dum monte alto, & diuino,

No qual hũa rica fabrica ſe erguia

De criſtal toda, & de ouro puro, & fino:

A maior parte aqui paſſam do dia

Em doçes jogos, & em prazer contino,

Ella nos paços logra ſeus amores,

As outras pelas ſombras entre as flores.


Aſsi a fermofa, & a forte companhia,

O dia quaſi todo eſtão paſſando,

Nãa alma, doçe, incognita alegria,

O trabalhos tam longos compenſando:

Porque dos feitos grandes, da ouſadia

Forte & famoſa, o mundo està guardando

O premio la no fim bem merecido,

Com fama grande, & nome alto & ſubido.


Que as Nimphas do Occeano tam fermoſas,

Thetis & a Ilha angelica pintada,

Outra couſa nam he, que as deleitoſas

Honras, que a vida fazem ſublimada:

Aquellas preminencias glorioſas,

Os triumphos, a fronte coroada

De Palma, & Louro, a gloria & marauilha

Estes ſam os deleites desta Ilha.


Que as immortalidades que fingia

A antiguidade, que os illuſtres ama,

La no estellante Olimpo a quem ſubia,

Sobre as aſas inclitas da fama,

Por obras valeroſas, que fazia,

Pelo trabalho immenſo, que ſe chama

Caminho da virtude alto & fragoſo:

Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo.


Nam erão ſenão premios, que reparte

Por feitos imortais & ſoberanos,

O mundo, cos varões, que esforço & arte

Diuinos os fizerão, ſendo humanos:

Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte

Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos

Ceres, Palas, & Iuno, com Diana

Todos forão de fraca carne humana.


Mas a fama, trombeta de obras tais,

Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos

De Deoſes, Semideoſes immortais

Indigetes, Eroicos, & de Magnos

Por iſſo, o vos que as famas estimais,

Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos,

Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo,

Que o animo de liure faz eſcrauo.


E ponde na cobiça hum freio duro,

E na ambiçam tambem, que indignamente

Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro

Vicio da tirania infame, & vrgente:

Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro

Verdadeiro valor nam dão aa gente,

Milhor he merecellos, ſem os ter

Que poſſuilos ſem os mereçer.


Ou day na paz as leis iguais, constantes,

Que aos grandes não dem o dos pequenos,

Ou vos veſti nas armas rutilantes,

Contra a ley dos imigos Sarracenos,

Fareis os Reinos grandes, & poſſantes

E todos tereis mais, & nenhum menos

Poſſuireis riquezas merecidas,

Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas.


E fareis claro o Rei, que tanto amais,

Agora cos conſelhos bem cuidados,

Agora co as eſpadas, que immortais

Vos farão, como os voſſos ja paſſados:

Impoſsibilidades não façais,

Que quem quis ſempre pode: & numerados

Sereis entre os Heroes eſclarecidos,

E neſta ilha de Venus recebidos.

#colonialismo #comércio de especiarias #exploração marítima #luis vaz de camoes #mitologia

1 like

Related poems →

More by Luís Vaz de Camões

Read "Canto IX" by Luís Vaz de Camões. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Luís Vaz de Camões.