Fausto no seu laboratório

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

      FAUSTO: (só)

Ondas de aspiração que vãs morreis

Sem mesmo o coração e alma atingir

Do vosso sentimento; ondas de pranto,

Não vos posso chorar, e em mim subis,

Maré imensa rumorosa e surda,

Para morrer na praia do limite

Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas

D'algum mar alto Aonde a praia seja

Um sonho inútil, ou d'alguma terra

Desconhecida mais que a eterna aura

Do eterno sofrimento, e onde formas

Dos olhos d'alma não imaginadas

Vagam, essências lúcidas e (...)

Esquecidas daquilo que chamamos

Suspiro, lágrima, desolação;

Ondas nas quais não posso visionar,

Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,

Nem esperança transitória, nem

Ilusão nada da desilusão;

Oh ondas sem brancuras, asperezas,

Mas redondas, como óleos e silentes

No vosso intérmino e total rumor...

Oh ondas d'alma, decaí em lago

Ou levantai-vos ásperas e brancas

Com o sussurro ácido da espuma

Erguei em tempestades no meu ser.

Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar

Sentido, visto não, rumorejante

Sobre o fundo profundo da minha alma!

Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!

Não vos quero chorar. Se vos chorasse

Como chegar — tantas! — ao vosso fim?

Chegado ao vosso fim que encontraria?

Talvez uma aridez desesperada

Uma ânsia vã de não poder trazer-vos

Outra vez para mim para chorar-vos

Em vã consolação inda outra vez!


Não haver alma, inda ideia vã!

Havê-la e imortal, sonho pequeno

De término[?], embora coerente

À sua pequenez. Que mais? Havê-la,

Havê-la e ser mortal, morrer num Todo

Celeste? Vago, vão. Não haverá

Além da morte e da imortalidade

Qualquer cousa maior? Ah, deve haver

Além de vida e morte, ser, não ser,

Um Inominável supertranscendente

Eterno Incógnito e incognoscível!

Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.

P'ra quê pensar, se há-de parar aqui

O curto voo do entendimento?

Mais além! Pensamento, mais além!

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