Passo por meus trabalhos tão isento

by Luís Vaz de Camões · (no date)
Published 01/07/1880

Passo por meus trabalhos tão isento

De sentimento grande nem pequeno,

Que só por a vontade com que peno

Me fica Amor devendo mais tormento.


Mas vai-me Amor matando tanto a tento,

Temperando a triaga co'o veneno,

Que do penar a ordem desordeno,

Porque não mo consente o soffrimento.


Porém se esta fineza o Amor sente

E pagar-me meu mal com mal pretende,

Torna-me com prazer como ao sol neve.


Mas se me vê co'os males tão contente,

Faz-se avaro da pena, porque entende

Que quanto mais me paga, mais me deve.

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