Horror! Não sei ser inconsciente

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Horror! Não sei ser inconsciente

E tenho para tudo, do que é bom

À inconsciência, o pensamento aberto,

Tornando-o impossível.


O amor causa-me horror é abandono,

Intimidade, mostrar (...) do ser


E eu tenho do alto orgulho a timidez

E sinto horror a abrir o ser a alguém,

A confiar n'alguém. Horror eu sinto

A que prescrute alguém, ou levemente

Ou não, quaisquer recantos do meu ser.

Abandonar-me em braços nus e belos

(Inda que deles o amor viesse)

No conceber de tudo me horroriza;

Seria violar meu ser profundo,

Aproximar-me muito doutros homens;

Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (

Confrange-me: acostumei-me cedo

Aos despimentos do meu ser,

A fixar olhos púdicos, conscientes

Demais. Pensar em dizer «amo-te»

E «amo-te» só — só isto me angustia...

Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)

Exponho uma íntima parte de mim,

Para poder amar eu precisava

Esquecer que sou Fausto o pensador.

Eu queria era dormir, dormi, dormir,

Longo dormir, meio sentindo em sono,

E dormir sempre, sem consciência ter

Do tempo, só do sono sonolento

E da vacuidade do meu ser;

Dormir sem vir a morte, nem sonhar

Mas dormir só dormir, sempre dormir.

Que hoje já de dormir desaprendi.

Cansado de pensar, a pensar fico,

E as noites longas, longas, longas, longas,

E o pálido raiar de inda doutro dia...

Inda outro dia que trará ainda

Uma outra noite e essa mais dias, mais...

Insone sentir isto, e o deslizar

Suave e horroroso do tempo.

Cai então sobre mim todo o horror claro

E nítido e visível do mistério,

E eu tal fico em abalo e em comoção

Que durmo — sim que durmo de pesar-me

Tudo de mais p'ra mais poder sentir.

Então durmo... e antes eu não dormisse

Porque desordenadas incoerências

Mas não visões, só abstracções terríveis

(...)

#ansiedade existencial #fernando pessoa #horror interior #insónia

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