XLIII - Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,

by Alberto Caeiro · 7-5-1914
Published 07/05/1914

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,

Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.

A ave passa e esquece, e assim deve ser.

O animal, onde já não está e por isso de nada serve,

Mostra que já esteve, o que não serve para nada.


A recordação é uma traição à Natureza.

Porque a Natureza de ontem não é Natureza.

O que foi não é nada, e lembrar é não ver.


Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

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