Meus gestos não sou eu.

by Fernando Pessoa · 24-10-1913?
Published 24/10/1913

Meus gestos não sou eu.

Como o céu não é nada,

O que em mim não é meu

Não passa pela estrada.


O som do vento dorme

No dia sem razão.

O meu tédio é enorme.

Todo eu sou vácuo e vão.


Se ao menos uma vaga

Lembrança me viesse

De melhor céu ou plaga

Que esta vida! Mas esse


Pensamento pensado

Como fim de pensar

Dorme no meu agrado

Como uma alga no mar.


E só no dia estranho

Ao que sinto e que sou

Passa quanto eu não tenho,

Está tudo onde eu não estou.


Não sou eu, não conheço,

Não possuo nem passo.

Minha vida adormeço

Não sei em que regaço.

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