XIV - Como uma voz de fonte que cessasse

by Fernando Pessoa · s. d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Como uma voz de fonte que cessasse

(E uns para os outros nossos vãos olhares

Se admiraram), para além dos meus palmares

De sonho, a voz que do meu tédio nasce


Parou... Apareceu já sem disfarce

De música longínqua, asas nos ares,

O mistério silente como os mares,

Quando morreu o vento e a calma pasce...


A paisagem longínqua só existe

Para haver nela um silêncio em descida

Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...


E, perto ou longe, grande lago mudo,

O mundo, o informe mundo onde há a vida...

E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

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