XI - Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

by Fernando Pessoa · s. d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

E oculta mão colora alguém em mim.

Pus a alma no nexo de perdê-la

E o meu princípio floresceu em Fim.


Que importa o tédio que dentro em mim gela,

E o leve Outono, e as galas, e o marfim,

E a congruência da alma que se vela

Com os sonhados pálios de cetim?


Disperso... E a hora como um leque fecha-se...

Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...

O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...


E, abrindo as asas sobre Renovar,

A erma sombra do voo começado

Pestaneja no campo abandonado...

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