No alto da tua sombra, a prumo sobre

by Fernando Pessoa · 14-9-1919
Published 14/09/1919

No alto da tua sombra, a prumo sobre

A inconstância irreal de vida e dias,

Achei-me só e vi que as agonias

Da vida, o tédio as finda e a morte as cobre.


Ali, no alto de ser, sentir é nobre,

Despido de ilusões e de ironias.

Não sinto as mãos unidas, que estão frias,

Não sei de mim, o que fui era pobre.


Mas mesmo nessa altura de mistério

E abismo de ascensão, não encontrei

Paragem, conclusão ou refrigério.


Deixei atrás o acaso de viver,

O ser sempre outrem, a escondida lei,

Caos de existirmos, névoa de o saber.

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