Sim, talvez tenham razão.

by Alberto Caeiro · 4-6-1922
Published 04/06/1922

Sim, talvez tenham razão.

Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,

Mas essa coisa oculta é a mesma

Que a coisa sem ser oculta.


Na planta, na árvore, na flor

(Em tudo que vive sem fala

E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),

No bosque que não é árvores mas bosque,

Total das árvores sem soma,

Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro

Que lhes dá a vida;

Que floresce com o florescer deles

E é verde no seu verdor.


No animal e no homem entra.

Vive por fora por dentro

É um já dentro por fora,

Dizem os filósofos que isto é a alma

Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem

Da maneira como existe.


E penso que talvez haja entes

Em que as duas coisas coincidam

E tenham o mesmo tamanho.


E que estes entes serão os deuses,

Que existem porque assim é que completamente se existe,

Que não morrem porque são iguais a si mesmos,

Que podem mentir porque não têm divisão [?]

Entre quem são e quem são,

E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam

Porque o que é perfeito não precisa de nada.

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