ANTÍNOO - T

by Fernando Pessoa · 1915
Published 01/07/1915

ANTÍNOO


Era em Adriano fria a chuva fora.


Jaz morto o jovem

No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,

Aos olhos rasos de Adriano, cuja dor é medo,

A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa.


Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite

Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme

Da Natureza em acto de matá-lo.

Memória de que el' foi não dava já deleite,

Deleite no que el' foi era morto e indistinto.


Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes,

Cuja frieza agora as sente frias!

Ó cabelo antes preso p'lo penteado justo!

Ó olhos algo inquietantemente ousados!

Ó simples macho corpo feminino qual

O aparentar-se um deus à humanidade!

Os lábios cujo abrir vermelho titilava

Os sítios da luxúria com tanta arte viva!

Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito!

Ó língua que na língua o sangue audaz tornava!

[...]

#erotismo #existencialismo #fernando pessoa #luto #morte

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