Sonho sem fim nem fundo.

by Fernando Pessoa · 2-7-1934
Published 02/07/1934

Sonho sem fim nem fundo.

Durmo, fruste e infecundo.

Deus dorme, e é isso o mundo.


Mas se eu dormir também

Um sono qual Deus tem

Talvez eu sonhe o Bem —


O Bem do Mal que existo.

Esse sonho, que avisto,

Em mim chamo-lhe o Cristo.


Agora o seu ser ausente,

Surge o que há de presente

Na ausência, eternamente.


Não foi em cruz erguida

Num calvário da vida,

Mas numa cruz vivida


Que foi crucificado

O que foi, em seu lado,

Por lança golpeado.


E desse coração

Água e sangue virão,

Mas a verdade não...


Só quando já, descido

De aonde foi subido

Para ser escarnecido,


Seu corpo for baixar

Onde se há-de enterrar,

O haverei de encontrar.


Desde que o mundo foi

No mundo à alma dói

O que ao mundo destrói.


Desde que a vida dura

Tem a vida a amargura

De ser mortal e impura


E assim na Cruz se fez

A vida, para que a nós

Veja o melhor de nós.


O túmulo fechado

Aberto foi achado

E vazio encontrado.


Meu coração também

É o túmulo do Bem,

Que a vida bem não tem.


Mas há um anjo a me ver

E a meu lado a dizer

Que tudo é outro ser.

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