CANTO A LEOPARDI

by Fernando Pessoa · 1934
Published 01/07/1934

Ah, mas da voz exâmine pranteia

O coração aflito respondendo:

«Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia?

Se não há nem bondade nem justiça

Porque é que anseia o coração na liça

Os seus inúteis mitos defendendo?


Se é falso crer num deus ou num destino

Que saiba o que é o coração humano,

Porque há o humano coração e o tino

Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano

Querer justiça, porque na justiça

Querer o bem, para que o bem querer?

Que maldade, que [...], que injustiça

Nos fez para crer, se não devemos crer?


Se o dúbio e incerto mundo,

Se a vida transitória

Têm noutra parte o íntimo e profundo

Sentido, e o quadro último da história,

Porque há um mundo transitório e incerto

Onde ando por incerteza e transição,

Hoje um mal, uma dor, e [...], aberto

Um só dorido coração?»


[...]


Assim, na noite abstracta da Razão, Inutilmente, majestosamente,

Dialoga consigo o coração,

Fala alto a si mesma a mente;

E não há paz nem conclusão,

Tudo é como se fora inexistente.

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