HORA MORTA

by Fernando Pessoa · 23-3-1913
Published 23/03/1913

Lenta e lenta a hora

Por mim dentro soa

(Alma que se ignora!)

Lenta e lenta e lenta,

Lenta e sonolenta

A lua se escoa...


Tudo tão inútil!

Tão como que doente

Tão divinamente

Fútil — ah, tão fútil

Sonho que se sente

De si próprio ausente...


Naufrágio ante o ocaso

Hora de piedade...

Tudo é névoa e acaso

Hora oca e perdida,

Cinza de vivida

(Que Poente me invade?)


Por que lenta ante olha

Lenta em seu som,

Que sinto ignorar?

Por que é que me gela

Meu próprio pensar

Em sonhar amar?...


Que morta esta hora!

Que alma minha chora

Tão perdida e alheia?...

Mar batendo na areia,

Para quê? para quê?

P'ra ser o que se vê

Na alva areia batendo?

Só isto? Não há


Lâmpada de haver —

— Um — sentido ardendo

Dentro da hora — já

Espuma de morrer?

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