Só uma cousa me apavora

by Fernando Pessoa · 1-3-1909
Published 01/03/1909

Só uma cousa me apavora

A esta hora, a toda a hora:

É que verei a morte frente a frente,

Inevitavelmente.

Ah, este horror, como poder dizer?

Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!


E nessa hora em que eu e a Morte

Nos encontrarmos

O que verei? o que saberei?

O que não verei? o que não saberei?

Horror! A vida é má e é má a morte,

Mas quisera viver eternamente

Sem saber nunca, (...) e inconsciente

Isso que a morte traz e (...)


Não me tenta o mistério

Nem desejo saber

O que é que vai do berço ao cemitério

No ardor chamado viver.

A verdade apavora-me e confrange,

Perturba-me como a ninguém.


Que o tempo cesse!

Que pare e fique sempre este momento!

Que eu nunca me aproxime desse

Horror que mata o pensamento!

Envolvei-me, fechai-me dentro em vós


E que eu não morra nunca.


Odeio a vida, amarga-me e horroriza.

Mas a morte — oh a morte, velada

O próprio horror dentro em mim paralisa

Deixando a dor funda e estagnada.

Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!

Mistérios menores onde esquecer

Se pode a mor dor indefinida,

Menos horrorosos porque não sabeis dizer

Esse segredo que dito deveis trazer.


Não me deixeis morrer...

#ansiedade existencial #existencialismo #fernando pessoa #horror #medo da morte #morte

1 like

Related poems →

More by Fernando Pessoa

Read "Só uma cousa me apavora" by Fernando Pessoa. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Fernando Pessoa.