Meu devir p. I: O instante que te achei
by Sara Ferreira
· 18/05/2026
Published 18/05/2026 19:12
Meu devir p. I: O instante que te achei
Havia naquele rapaz uma delicadeza incomum, não frágil, tampouco ensaiada, mas contida e firme, algo que parecia anterior a qualquer esforço de parecer bom. Talvez tenha sido isso que a atingiu primeiro: a ausência de ameaça.
Ao longo dos anos, ela aprendera a reconhecer homens que confundiam intensidade com poder. Entravam nos lugares como quem precisava conquistar território, preenchendo cada conversa com a própria voz, incapazes de perceber a existência de qualquer pessoa além de si mesmos. Diante deles, aprendeu cedo a não permanecer. Bastava perceber a necessidade de domínio, e algo dentro dela imediatamente recuava. Não por medo, mas porque se recusava a ocupar espaços onde precisasse diminuir a própria natureza.
Mas, ao lado dele, nada nela despertava defesa. Havia serenidade na forma como sustentava o olhar. Uma estabilidade rara, quase silenciosa, de alguém que conhecia a própria força e, justamente por isso, não fazia dela demonstração. Perto dele, ela experimentou algo que já não julgava possível: paz.
Uma quietude funda, semelhante ao corpo que finalmente descansa depois de tempo demais em alerta. Sem perceber, começou a gostar da proximidade dele. Das conversas que pareciam continuar mesmo quando as palavras cessavam. Da estranha familiaridade de encontrar abrigo em alguém sem precisar se ajustar para permanecer.
E não se tratava de encanto. Muito menos de aparência. Era reconhecimento.
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