Meu devir p. II: depois de você

by Sara Ferreira · 18/05/2026
Published 18/05/2026 19:12

Meu devir p. II: depois de você


A descoberta íntima de que outra consciência atravessava o mundo com sensibilidades próximas das suas. Como se, depois de anos enclausurada dentro da própria percepção, finalmente encontrasse alguém capaz de alcançá-la sem exigir explicações. Isso a desestabilizou mais do que deveria.


Porque fascínio é passageiro. Desejo oscila. Admiração aprende a conviver com o tempo. Mas reconhecer a si mesma através do outro reorganiza silenciosamente tudo ao redor.


Talvez tenha sido naquele breve fim de semana que ela compreendeu o aspecto mais perigoso de passar a vida inteira protegendo o próprio coração: quando alguém atravessa todas as barreiras sem violência alguma, nenhuma outra presença ocupa o mesmo lugar depois.


Então a viagem terminou. E ela precisou reaprender a realidade.


Passou a encontrá-lo disperso nas pequenas permanências da existência: na luz dourada atravessando o horizonte ao entardecer, no movimento lento das árvores sob o vento, na quietude das manhãs. Às vezes era o céu que devolvia a lembrança dos olhos dele. Em outras, uma calma chegava devagar, como sombra no fim da tarde, e ela percebia que o eco daquele encontro seguia intacto.


O mais inquietante era saber que tudo nascera de quase nada. Poucos dias. Alguns instantes suspensos entre olhares demorados e frases incompletas. Tão pouco, e ainda assim suficiente para fazê-la querer permanecer.


info.:  refinamento assistidos por IA.

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