SEMITIS DESILIENTIS AQUAE

by Bernardo Soares · 8-10-1919
Published 08/10/1919

Semitis [?] desilientis aquae


No ar frio da noite calma

Bóia à vontade a minha alma,

Quase sem querer viver

Sente os momentos correr,

Como uma folha no rio,

Sente contra si o frio

Das horas fluidas levando

Seu inerte corpo brando.


Mais do que isto? Para quê?

Tudo quanto o olhar vê

A mão toca, o ouvido escuta,

A consciência prescruta,

É inútil que se escutasse,

Que se visse ou se pensasse.


Entre as margens com arbustos

Luze, na noite dos sustos,

Só o luar repousado,

Ao correr vago e amparado

Do rio deixado em livre

A alma passa, a alma vive.

Ninguém. Só eu e o segredo

Do luar e do arvoredo

Que das margens causa medo.


Nada. Só a hora inútil

Só o sacrifício fútil

De desejar sem querer

E sem razão esquecer.


Prolixa memória, toda.

Rio indo como uma roda,

Noite como um lago mudo,

E a incerteza de tudo.


Recosto‑me, e a hora dorme.

Corre-me o que a noite enorme

Atribui à minha mágoa,

Como um ser murmuro de água.


Ninguém; a noite e o luar.

Nada; nem saber pensar.

Raie o dia, ou morra eu

Volte no oriente do céu

O sol ou não volte mais,

Só sempre os tédios iguais

E as horas, calem o medo,

Como o rio entre o arvoredo,

De nocturna consistência,

Com fluida, vaga insistência.

O mal é haver consciência

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