O que a carta não dizia
by Miguel Couto
· 17/04/2026
Published 17/04/2026 12:47
A carta estava dobrada a meio, numa caixa.
Não sabia que a tinha guardado.
O nome do remetente, a assinatura baixa —
aquele também saiu. Também foi dispensado.
Li-a outra vez, de pé no corredor,
sem me sentar, sem ter para onde ir.
A linguagem cuidada, sem calor —
a dizer despedimento sem o admitir.
Aprendi isto: quem escreve assim
aprendeu a não deixar rasto de razão.
Que as palavras certas têm um fim
que não é a verdade — é a proteção.
Dobrei o papel pelas mesmas marcas.
Pus de volta na caixa. Fechei.
Há coisas que ficam como estacas
fincadas no sítio em que as deixei.