Mãos ocupadas
by Miguel Couto
· 18/04/2026
Published 18/04/2026 16:35
O homem disse o que disse, em voz alta, na fila.
A fila ouviu e ficou onde estava.
Havia ali qualquer coisa com a forma de uma bala
parada no ar — e ninguém a apanhava.
Olhei para o ecrã do telemóvel.
Vi as pessoas à volta fazerem o mesmo.
A funcionária passou cada artigo, imóvel
no gesto — bip, bip — ritmo de sistema.
As mãos dela não pararam um segundo.
O homem foi embora com o talão.
Eu paguei, saí, e lá no fundo
trago isto há três dias sem explicação.
Não é culpa, exactamente.
É mais o bip das mãos dela, constante.