Os Mapas no Vidro
by ritamendes
· 28/10/2025
Published 28/10/2025 11:51
O sol da manhã, implacável, atrevido,
entra pela cozinha, rasga o ar sujo.
Lavo os copos do pequeno-almoço, esquecido
da noite que passou, do meu refúgio.
Mas num deles, um cristal baço, sem brio,
os seus dedos, gordurosos, um mapa, um rasto.
Não eram os meus. Eram os dele, num frio
claro, um inventário de um passado.
Manchas esbranquiçadas que distorcem a luz,
cada curva, cada redemoinho, um gesto,
um toque que o sabão, agora, conduz
a um rio de espuma, um novo pretexto.
O cheiro a limão, forte, a apagar
a prova, o seu nome, a sua pele ali.
Eram só impressões, a escorrer para o mar.
Mas que vazio depois o vidro me devolveu.