O Olho Suspenso
by ritamendes
· 09/11/2025
Published 09/11/2025 17:35
No talho da esquina, nova, uma lente escura,
como um caroço de azeitona na argamassa pura.
Aponta para onde espero o autocarro, sem pressa,
e a sua quietude fria me atravessa.
Não pisca, não geme, só absorve a luz do dia,
uma mosca gigante a guardar a via.
Olha-me, suponho, o que me faz sentir pequeno,
e o mundo inteiro parece um filme alheio.
Os meus passos no cimento, o ar que respiro,
tudo gravado, sem que eu suspire.
Não há fugir do olhar que tudo consome,
a nossa vida exposta, sem nome.