O Gesto da Begónia
by ritamendes
· 10/11/2025
Published 10/11/2025 16:47
A luz batia na vidraça,
como sempre, numa tarde de terça.
Fui regar as begónias,
as de folhas como orelhas vermelhas,
e vi aquela amarela,
uma moeda a desvanecer.
Os meus dedos sabiam a pressão exata,
o leve torcer para não
rasgar o caule,
uma violência precisa, pequena.
Como a dela.
A minha mãe, o rosto emoldurado
pelo sol rude,
a testa franzida assim,
o suspiro um assobio calado
quando a folha se soltava,
uma rendição silenciosa.
Vi-a nas minhas mãos,
uma frieza súbita.
Onde acabo eu?
Onde começa ela?