Abre, Por Favor
by ritamendes
· 17/12/2025
Published 17/12/2025 14:22
Sentei-me na cadeira, e o bib de plástico apertou,
uma coleira branca, e a luz focada no meu rosto.
Os óculos escuros. A assistente sussurrou,
uma calma falsa, que me deixava sem gosto
na boca, já seca. O cheiro a antisséptico no ar,
a promessa de metal, de luvas de látex, de dor que vem.
O instrumento frio. O maxilar começa a cansar
antes de eu sequer ter começado. 'Abre'. E a ordem retém
a minha vontade, a minha voz, o meu espaço.
Um 'Abre' que é um 'Entrega-te', uma perda de controlo
no silêncio do consultório. Abro, sem compasso,
e deixo a boca exposta, a alma em cada dente, num rolo
de vulnerabilidade. E espero, os olhos fechados, quase a ver
aquele brilho frio, a sentir a raspagem que vai doer.