A discussão findou um resto amargo
by ritamendes
· 23/12/2025
Published 23/12/2025 10:13
A discussão findou, um resto amargo
na boca, um nó cego a doer na garganta.
Sentámo-nos no sofá, um barco
que o mar da mágoa já não levanta.
O seu corpo, no canto, afundava o tecido,
como um sulco, uma vala, um abismo raso.
O comando da TV, esquecido,
ficou a meio, um mudo acaso.
Os meus joelhos, perto, mas longe, sem atrever
a quebrar a lei de um metro invisível.
A luz da tela, azul, fazia aparecer
sombras longas, um contorno impassível.
E o vazio, que antes nos unia,
dobrou o espaço, tornou-se real.
Um deserto de pano, uma agonia
que nem o silêncio soube disfarçar.