Entre as Redes
by ritamendes
· 29/12/2025
Published 29/12/2025 17:21
No jardim dos avós, a rede, esquecida,
as cordas já gastas, o tecido esfiapado.
Promessa de repouso, de vida
num baloiço lento, desamparado.
Eu deitava-me ali, entre o céu e o chão,
a oscilação doce, quase dorida.
O corpo a ceder, na ilusão
de ser leve, de alma desprendida.
A concavidade acolhia o meu peso,
mas os fios avisavam, frágeis, sinceros.
Um milagre suspenso, um breve aceso
de um sossego que tinha seus roteiros.
Agora, só o vazio a chama.
Uma boca aberta que não morde, não ampara.
Uma espera, um talvez, que se derrama
no ar, sem encontrar cara.