Debaixo do Silêncio
by ritamendes
· 19/01/2026
Published 19/01/2026 16:57
O betão cru, frio, a respirar humidade.
Ranhuras escuras, veias de infiltração,
desenham mapas de uma outra cidade
na barriga desta construção.
A luz do fim da tarde rasga-se
em tiras finas, poeirentas,
entre as vigas. Uma vida amassa-se
na sombra que ali se sustenta.
O som do carro, um zumbido grave,
multiplica-se e morre depressa.
O silêncio que o arco grave
guarda, sem que ninguém o peça.
É um ventre de pedra, uma pausa
sob o mundo que corre sem fim.
Um lugar sem causa,
onde o peso me cai em mim.