O carro arranca a estrada a chamar
by ritamendes
· 23/01/2026
Published 23/01/2026 20:38
O carro arranca, a estrada a chamar.
Ajusto o espelho, um gesto tão comum,
e de repente, vejo-a, a recuar,
a minha aldeia, tornando-se num.
Um ponto distante, a igreja, as casas baixas,
as ruas onde corri, as árvores antigas.
Tudo se encolhe, transforma-se em caixas,
em contornos vagos, memórias frouxas.
O presente avança, implacável, direto,
e o passado, no vidro, diminui.
Como um nó na garganta, um afeto
que se desfaz, um tempo que me esvazia.
É só uma imagem, um reflexo,
mas a sua ausência é um peso cru.
O que fica é só um espectro,
um adeus lento, um espelho nu.