O Canto Dobrado da Memória
by ritamendes
· 10/02/2026
Published 10/02/2026 15:30
No sótão, o pó, uma língua cinzenta
a cobrir o tempo, a esconder os gestos.
Caixas de cartão, lembranças lentas,
dos mortos e dos seus protestos.
E ali estava, no fundo, entre mil
imagens de férias e de um baptizado,
uma foto a preto e branco, tão vil,
com um canto dobrado, mal rasgado.
O meu avô, mais novo, com um sorriso
que lhe prendia os lábios, um disfarce,
a segurar a mão de um estranho, um aviso
de algo que o ar quis abafar, que se desfaz.
O brilho nos olhos do outro, quase um véu,
dizia tanto que não queria ser lido.
Que silêncio se escondeu?
Que segredo, no papel, ficou dorido?