A caixa no sótão
by ritamendes
· 21/02/2026
Published 21/02/2026 16:20
A caixa no sótão,
poeira e memória,
aberta agora,
como uma ferida antiga
que nunca fechou direito.
Lá dentro, entre programas amarelados,
o lenço de seda barato,
manchado de café velho.
O nó, ainda apertado,
um laço de desespero juvenil.
Vinte anos.
O palco improvisado,
as três mesas vazias
do café que já não existe.
O monólogo, a voz embargada,
o meu corpo a tremer,
aquela peça que eu achava
que me ia revelar.
Ninguém viu.
Ninguém se lembra.
Só este tecido áspero
e a mancha seca,
o cheiro a naftalina
que me agarra à garganta.
Ainda hoje procuro
um aplauso que nunca veio.