A Traição do Corpo
by ritamendes
· 04/03/2026
Published 04/03/2026 13:26
O arranhão primeiro na garganta, um presságio seco.
Depois o espirro, uma explosão de pó e ar.
O gosto metálico na boca, um pressentimento rouco.
O corpo começa a virar-se, a desarmar.
Fico na cama, o lençol pesado, um oceano
que balança sem mar. A tosse, rouca, rasga
a caixa torácica, cada músculo, um engano.
A pilha de lenços sujos, uma pequena carga
na mesinha. A pele queima, depois gela.
Os arrepios vêm de dentro, sem aviso, como uma corrente.
A cabeça pesa, uma fruta podre, uma sequela
de algo que se instalou e ali, teimosamente,
se aninha. E a febre, um mapa de miragens, me leva
para longe de mim, para um mundo onde o ar me lesa.