Entre Pratos e Silêncios
by ritamendes
· 18/03/2026
Published 18/03/2026 11:54
O telefone toca, a voz da minha mãe,
um convite velho para a ceia.
O 'tudo bem?' que não é 'tudo bem',
a linha fina que se rodeia.
Luzes da árvore, refletidas no cristal
das taças que nunca se enchem a sério.
Um prato de rabanadas, quase fatal,
arrefecendo no centro do mistério.
O brilho dos talheres, um disfarce,
para a tensão que ninguém quer ver.
O som de um garfo, que não se esfare,
mas bate no prato, a dizer.
E ninguém fala do que importa,
do que ficou para trás, da ferida aberta.
A paz frágil, uma linha torta,
à volta da mesa, sempre incerta.
Esperando que a noite passe,
sem mais um som, sem mais um impasse.