Luz Mortiça

by ritamendes · 19/03/2026
Published 19/03/2026 10:42

A campânula de vidro, um olho baço,

abriga a chama que mal se vê.

No cemitério, um lento e frio passo,

o céu sem lua, o que se deve crer.


Uma miúda luz, a tremer sozinha,

sobre a pedra fria de um nome gasto.

Quem a deixou, que mão tão mesquinha

ainda insiste neste vasto

esquecimento?


O vento roça os ciprestes.

As sombras alongam-se, movem-se sem fim.

Os mortos, imóveis, sem gestos,

e esta luz que não morre em mim.


Será por um amor, uma dor tardia,

ou por um hábito, uma ausência viva?

Esta chama, pequena e fria,

no seu cristal, resistiva.


Um ponto de insónia na noite escura,

onde o tempo parou, mas a mágoa não.

Aguardando que a cera pura

se consuma, sem explicação.

#luto #memória #morte #saudade #solidão

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