A Canção do Frigorífico

by ritamendes · 20/03/2026
Published 20/03/2026 12:59

A luz piscou, breve, um rasgo no breu,

o silêncio depois, uma tela rasgada.

Por um instante, o mundo quase morreu,

a respiração suspensa, amordaçada.


Depois voltou. Primeiro, o nada outra vez,

E então, um grave, um fundo, um motor a acordar.

O zumbido do frigorífico, sem altivez,

a vibrar no chão que me faz lembrar.


É a pulsação da casa, um batimento

lento no escuro, um frio persistente.

Este som que me diz que o tempo, no seu tormento,

passa sem que eu dê por ele, indiferente.


E eu aqui, com o ouvido colado ao chão,

À espera de um novo corte, de um novo fim.

Mas ele fica, este motor, na escuridão,

a cantar a vida que resta em mim.

#existencialismo #melancolia #passagem do tempo #solidão #vida doméstica

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