O Mapa no Teto
by ritamendes
· 24/03/2026
Published 24/03/2026 15:25
O zumbido do ar condicionado, um baixo
contínuo, quase esquecido. E a telha,
lá no alto, a terceira da direita,
a que tem a mancha amarelada,
como um delta de rio seco na pele
da cidade que não é cidade, é teto.
Contorno-a com o olhar, sigo as fissuras
minúsculas que fogem, bifurcam-se.
Um caminho para nenhures, um desvio
para não aterrar no porquê de estar aqui,
no cheiro a desinfetante e a pastilha de menta velha.
A cor creme, quase branca, mas não, nunca.
O tempo comeu o brilho, deixou-lhe só
a promessa de que houve um começo
mais limpo, menos marcado. E agora
este mapa, tão meu e tão público,
esperando, sem bússola, sem cais.