O outro que eu sou quando estão a ver
by Miguel Couto
· 03/03/2026
Published 03/03/2026 17:29
A Luísa disse: é sempre bem-disposto.
Estava a falar de mim. Sorri de imediato.
Não era forçado, era o sorriso oposto —
o certo, o mais completo, o articulado.
No vidro atrás da cabeça dela
o meu reflexo fazia o mesmo.
Uma versão mais certa, mais bela,
sem o cansaço, sem o peso.
A Sofia disse: que bom.
Eu disse: obrigado, sim.
Uma voz com o tom certo,
que não é bem a de mim.
Saí às seis. Corredor vazio.
Deixei de sorrir antes do elevador.
Não sei se foi alívio
ou se perdi alguma coisa no corredor.