O que se deve e o que se adia
by Miguel Couto
· 18/03/2026
Published 18/03/2026 13:39
Cruzei-me com o Rui na rua ontem.
Só acenámos. Não falámos nada.
Mas a dívida existe, e ela vem
sempre, quando menos é esperada.
Fui a casa. Abri o saldo no telemóvel.
O dinheiro estava lá, como sempre esteve.
Podia pagar. A transferência é fácil, imóvel —
dois cliques, e a dívida desaparece, ou deve.
Mas abri uma mensagem. O nome dele primeiro.
O cursor piscava. O campo vazio e quieto.
Se pagar tenho de escrever, e o que eu quero
é não ter de explicar o que ficou incompleto.
Os anos todos. O porquê de nunca ter pago.
As explicações que não tenho, ou que tenho mas custam.
O cursor piscava. O campo em branco, vago.
Fechei o telefone. Essas coisas não se ajustam.