O que o cromo devolve
by leonorvaz
· 24/02/2026
Published 24/02/2026 18:00
Segurei a bomba pelo pescoço de metal
e o meu rosto apareceu no cilindro cromado —
queixo puxado para a esquerda,
olhos demasiado afastados,
a mandíbula esticada como borracha
sobre um osso que não é meu.
Três segundos.
Não reconheci ninguém.
O cheiro a gasolina no ar frio da manhã,
o polegar encostado ao gatilho,
e aquela cara pálida e larga
a olhar para mim com a paciência
de quem espera que eu diga qualquer coisa
primeiro.
Larguei a bomba. Ouvi o clique.
Fui buscar o recibo à máquina.
O cromo não inventa nada.
Devolve o que lá está —
só muda a forma o suficiente
para que vejas o que habitualmente
desvias.