A segunda vez
by leonorvaz
· 05/04/2026
Published 05/04/2026 06:54
A chave entrou na fechadura igual.
O corredor com o mesmo ar fechado —
cal, ausência, o cheiro de abandono real
de um lugar que ficou parado.
Larguei as caixas. Fui, sem ter razão,
até ao radiador — e estava ali,
no chão, entre o ferro e a parede: a impressão
de algo meu. A caneta. Reconheci.
A marca dos dentes na tampa branca.
Nalguma tarde, a boca a trabalhar,
a mão a escrever — e a caneta franca
da distração, caída sem voltar.
O apartamento frio. A noite manca
de sentido. Eu cá dentro. A tentar.