O que o corpo devia guardar
by leonorvaz
· 27/02/2026
Published 27/02/2026 18:43
Fiquei parado à chuva com o cadeado na mão.
Quatro dígitos. Havia um número — estava
nalgum lugar no corpo, na pressão
dos dedos, no hábito que ficava.
Tentei a data. Um código de memória.
Um número antigo. O arco não cedeu.
Rodei o disco devagar. A história
que o corpo guarda — e já não é meu.
O armazém lá atrás, três anos fechado,
com as coisas de antes — um vazio
que não é vazio, só guardado.
Fui-me embora. O cadeado. O desafio
de não saber o que eu tinha deixado.
Isso fica. O disco. O arco frio.