O que não se vê de tanto ver
by leonorvaz
· 03/03/2026
Published 03/03/2026 16:05
O estafeta perguntou como era a porta.
Desci.
Fiquei parado à frente da minha própria entrada
como se fosse a primeira vez —
a cor que não é exactamente verde,
não é exactamente cinzento,
é uma cor que tem nome
num catálogo de uma loja que já não existe.
O puxador de metal.
Arranhado na parte de baixo.
Não sei desde quando.
O número do prédio colado ligeiramente torto —
dois centímetros, talvez —
e eu passo aqui todos os dias,
duas vezes, às vezes mais,
sem que nada fique em parte nenhuma.
Subi.
O estafeta já tinha ido embora.
Mandei uma mensagem: porta cor de...
e fiquei ali com o telemóvel na mão
sem saber o que escrever a seguir.